A disrupção trumpiana e o rearranjo global

Quando escrevi em fevereiro sobre o fim da ordem internacional tal como a conhecemos, a guerra contra o Irã ainda não havia se materializado. Para alguns, o diagnóstico talvez soasse exagerado. Como se o texto tivesse se adiantado aos fatos. Mas não era isso. O que estava em jogo ali não era um palpite sobre o calendário da crise. Era a leitura de um sintoma. E os sintomas, quase sempre, chegam antes do estrondo.Foi ao ler Robert Kagan — um dos nomes mais orgânicos do pensamento estratégico americano nas últimas décadas — que a fissura apareceu com nitidez. Kagan não fala da borda. Não é um crítico externo, nem um dissidente tardio. É um insider da tradição que ajudou a sustentar, justificar e organizar a arquitetura do poder americano no pós-guerra. Ele alertou que a transformação da quebra da ordem era um método de ação política.

Isso importa mais do que parece. 

Durante décadas, a estabilidade do sistema internacional dependeu menos da ausência de conflitos do que da previsibilidade do comportamento americano. Os Estados Unidos podiam agir com dureza, pressionar, intervir, impor custos. Mas, ainda assim, havia uma gramática reconhecível. Aliados sabiam como reagir. Mercados sabiam como precificar o risco. Cadeias produtivas sabiam, com maior ou menor esforço, como se reorganizar. Havia ruído. Mas também um centro de gravidade.

O que começa a mudar sob a disrupção trumpiana é justamente essa camada invisível da coordenação. Não necessariamente o poder bruto de Washington, mas aquilo que fazia esse poder funcionar como referência para o restante do sistema. O problema dos Estados Unidos, hoje, não é perda de poder. É a perda de previsibilidade. Cresce a desconfiança sobre a América.

Essa distinção, longe de ser semântica, é uma das diferenças que mudam a paisagem. Os EUA continuam sendo a maior potência militar do planeta, o núcleo do sistema financeiro global e um dos principais polos de........

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