Afinal, para quem o governo Tarcísio trabalha?

Há alguns dias, Tarcísio de Freitas ofereceu um retrato didático de sua forma de governar, com a troca dos trens da Linha 10-Turquesa da CPTM, que conecta o ABC Paulista a São Paulo e transporta quase meio milhão de passageiros por dia. 

Em qualquer sistema de transporte em que a gestão esteja comprometida com o interesse público, a substituição de trens significa melhoria: mais conforto, mais eficiência, menos tempo de deslocamento. 

Mas o que ocorreu foi a retirada de composições em melhores condições da Linha 10 para reforçar as linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade, todas elas já privatizadas. No lugar, entraram trens antigos, desgastados, com quase 20 anos de uso, barulhentos e, em muitos casos, sem ar-condicionado funcionando.

Talvez o governo Tarcísio não contasse com o tamanho da reação ao seu plano de beneficiar empresas privadas em detrimento dos usuários. O que se viu nas redes sociais e na cobertura de parte da imprensa regional foram passageiros indignados e críticas generalizadas. Um desgaste político acelerado, que corroeu a imagem de bom gestor que o governador tanto se esforça para sustentar, já sem o sucesso de outrora. 

Diante da pressão, Tarcísio fez o de sempre: recuou. Voltou atrás, desfez a troca e tentou encerrar o episódio como um tropeço pontual. Mas é justamente aqui que o caso ganha relevância. O recuo não apaga a intenção inicial. Ao contrário, a expõe.

Esse padrão de atuação se tornou recorrente. O governo avança com medidas impopulares, testa os limites da reação social e, se necessário, recua taticamente, preservando a estratégia de fundo. 

Foi assim também no debate sobre as câmeras corporais da Polícia Militar. Inicialmente contrário, Tarcísio precisou rever sua posição após a pressão pública e a evidência de que os equipamentos inibem eventuais abusos de agentes nas ruas e protegem os próprios policiais. A “mudança de visão” não foi porque se convenceu, foi imposta pela realidade.

No caso da CPTM, a lógica é ainda mais evidente e preocupante. Ao deslocar trens melhores para linhas privatizadas e deixar as públicas com equipamentos inferiores, o governo Tarcísio procura construir um contraste artificial. De um lado, eficiência e modernidade; de outro, sucateamento e insatisfação. 

Essa diferenciação não é acidental. Ela serve para alimentar uma narrativa conhecida: a de que o público não funciona e, portanto, deve ser entregue à iniciativa privada. É a lógica de criar um problema para oferecer a solução. 

Eles usam o sucateamento como método. Primeiro, pioram o serviço. Depois, apontam a precariedade como justificativa para a privatização. Por fim, transferem o patrimônio público ao setor privado, frequentemente em condições vantajosas para poucos e prejudiciais para muitos. É o negócio dos sonhos para a turma da Faria Lima. 

Ao seguir por essa rota, o governo Tarcísio penaliza diretamente a população para atender a interesses políticos e econômicos bem definidos. É uma clara inversão de prioridades daquilo que se espera de um bom gestor público. 

Essa forma de governar não se limita ao transporte. Ela dialoga com um alinhamento político mais amplo, que aproxima o governador de agendas e lideranças da extrema direita internacional, como o presidente Donald Trump, nos Estados Unidos, e de seu principal representante no Brasil, Jair Bolsonaro. Não por acaso, trata-se de um campo político que defende a redução do papel do Estado nos atendimentos às necessidades da população e sua instrumentalização para beneficiar interesses específicos.

O problema é que, quando essa visão se materializa em serviços públicos, quem paga a conta é a população. No caso da Linha 10-Turquesa, são milhares de trabalhadores que dependem diariamente do trem para ir e voltar do trabalho. Pessoas que já enfrentam jornadas exaustivas e que foram, ainda que temporariamente, submetidas a um serviço pior por decisão deliberada do governo Tarcísio de Freitas.

O episódio, portanto, não é um desvio. É uma síntese. Ele revela um projeto de poder que trata o serviço público não como um direito a ser garantido, mas como um ativo a ser reconfigurado, valorizado ou desvalorizado conforme a conveniência e os interesses do “mercado”.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.


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