O mundo diante do duplo choque inflacionário

Durante anos, a economia mundial contou com um amortecedor silencioso. Enquanto crises financeiras, tensões geopolíticas e choques de commodities se sucediam, havia um elemento que ajudava a conter os efeitos inflacionários globais: a capacidade da China de produzir bens industriais a custos declinantes.

Esse mecanismo foi central para a estabilidade relativa dos preços nas últimas décadas. Mesmo diante de expansões monetárias agressivas no Ocidente, a inflação permaneceu sob controle em grande parte porque havia uma oferta abundante de bens manufaturados baratos vindos da Ásia.

Esse arranjo pode estar se desfazendo.

Os sinais começam a aparecer com clareza. Após anos de pressão deflacionária sobre sua indústria, os preços ao produtor na China voltam a subir, impulsionados pelo encarecimento da energia e de matérias-primas estratégicas. 

À primeira vista, poderia parecer apenas um ajuste conjuntural. Mas não é. O que está em curso pode representar uma mudança qualitativa no funcionamento da economia global.

O primeiro choque: energia, guerra e insumos

O aumento recente dos preços não surge no vazio. Ele está diretamente ligado à reconfiguração geopolítica em curso.

A escalada no Oriente Médio, com impactos sobre fluxos energéticos e cadeias de suprimento, reintroduz um elemento clássico da economia internacional: o choque de custos baseado em commodities. O encarecimento do petróleo, do gás e de insumos industriais como o alumínio pressiona diretamente os custos de produção em escala global.

Esse é um fenômeno........

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