A nova geopolítica da energia: petróleo, transição e poder no século XXI
Durante algum tempo consolidou-se, sobretudo no debate ocidental, a ideia de que a expansão das energias renováveis conduziria progressivamente ao declínio da centralidade geopolítica do petróleo. A transição energética aparecia, muitas vezes, como um processo quase linear: o avanço tecnológico reduziria a dependência dos combustíveis fósseis e abriria caminho para uma economia mundial menos vulnerável às disputas por energia, às guerras no Oriente Médio e às oscilações dos mercados petrolíferos.
Mas o que ocorreu foi precisamente o contrário.
A última década revelou que a transição energética não eliminou a geopolítica do petróleo. Ela passou a coexistir com ela. Em vez de substituir rapidamente a lógica fóssil, o mundo ingressou numa etapa mais complexa, marcada pela sobreposição entre velhas e novas disputas energéticas. O petróleo continua estruturando cadeias industriais, sistemas logísticos, produção de fertilizantes, transporte marítimo, aviação, petroquímica e poder militar. Ao mesmo tempo, a corrida tecnológica em torno de baterias, minerais críticos, veículos elétricos e infraestrutura verde cria novas formas de competição internacional.
A energia voltou ao centro da estratégia global.
Essa transformação aparece de maneira particularmente clara nos conflitos envolvendo Rússia, Irã e Oriente Médio. A guerra na Ucrânia expôs a fragilidade energética europeia de forma contundente. Durante décadas, a União Europeia construiu parte importante de sua competitividade industrial apoiada no acesso relativamente barato ao gás russo. O conflito revelou os limites dessa arquitetura. A substituição acelerada de fornecedores elevou custos, pressionou a indústria europeia e recolocou a segurança energética no centro das decisões........
