Ucrânia: 4 anos de uma evitável e perigosa guerra
A guerra na Ucrânia é apenas a expressão imediata e “quente” de um conflito que foi basicamente engendrado pelos EUA e aliados já na década de 1990.
Com efeito, os EUA e alguns de seus aliados, principalmente os do Leste europeu, nunca deixaram de considerar a Rússia como uma ameaça potencial à sua hegemonia naquela região.
Considere-se que Yeltsin e Putin, este último no início de seu primeiro governo, chegaram a solicitar aos EUA que a Rússia fosse incluída num organismo de “segurança pan-europeu”, ou mesmo na Otan. A bem da verdade, Putin fez exatamente essa última solicitação, em 2000. Todos esses movimentos de aproximação, ressalte-se, foram rejeitados, em última instância.
Assim, na década de 90 e no início deste século, a Rússia não se via como uma adversária da Europa. Ao contrário, desejava ser incluída nela. Via-se essencialmente como um país europeísta. Mesmo assim, os EUA e alguns aliados rejeitaram sistematicamente tais pretensões da Rússia e mantiveram uma estratégia de exclusão daquele país e de contínua expansão da Otan para o Leste. Tal estratégia pode ser resumida pela seguinte frase: manter os americanos dentro; manter os russos fora e manter os alemães subordinados
Os EUA, em vez de se aproveitar da extinção da URSS e do Pacto de Varsóvia para criar um ambiente cooperativo com a Rússia, como bem argumenta Jeffrey Sachs, testemunha ocular de toda essa história, preferiram investir na geração de uma agressiva hegemonia absoluta.
Zbigniew Brzezinski, scholar extremamente influente, que fora assessor presidencial para assuntos de segurança nacional no período de 1977 a 1981, concebeu, já em meados da década de 1990, uma geoestratégia para a Eurásia que implicava, no longo prazo, um novo conflito com a Rússia.
De fato, a geoestratégia concebida por Brzezinski propunha várias ações de longo prazo concomitantes que conduziam a um acirramento das tensões na Eurásia.
Em primeiro lugar, o fortalecimento da Europa unida, sob a liderança dos EUA. Para tanto, Brzezinski já sugeria, inclusive, a celebração de um tratado de livre comércio transatlântico. Em segundo, o fortalecimento das novas nações independentes da Ásia Central e do Leste Europeu, que surgiram após o colapso da União Soviética, e a consequente expansão da OTAN até a Ucrânia (sim, isso já estava previsto desde a década de 1990, nessa estratégia neocon). Em terceiro lugar, e mais importante, a geoestratégia de Brzezinski previa o enfraquecimento ainda maior da Rússia e o enquadramento de sua política externa nos imperativos geopolíticos dos EUA e seus aliados.
Brzezinski chegou a propor até mesmo uma descentralização territorial da Rússia.
Brzezinski propôs, de fato, um quase desmembramento territorial da Rússia, com a constituição de três grandes repúblicas autônomas: a República da Rússia Europeia, a República da Sibéria e a República do Extremo Leste.
Segundo Brzezinski, isso permitiria o melhor aproveitamento dos recursos naturais e das potencialidades econômicas locais, já que essa nova conformação enfraqueceria o poder burocrático de Moscou. Além disso, essa nova conformação tornaria a Rússia “menos suscetível” a uma nova “mobilização imperial”.
Naquela época, essa geoestratégia parecia não só inteiramente factível como algo praticamente inevitável.
A Rússia, reduzida a cacos, economicamente, politicamente e militarmente, teria de aceitar essas imposições. Não haveria alternativas.
Zbigniew Brzezinski, entretanto, aventou, em 1997, um cenário adverso, na sua obra “O Grande Tabuleiro de Xadrez”.
“Potencialmente, o cenário mais perigoso seria uma grande coligação entre a China, a Rússia e talvez o Irã, uma coligação 'anti-hegemônica' unida não pela ideologia, mas por queixas complementares... Evitar esta contingência, por mais remota que seja, exigirá uma demonstração de capacidade geoestratégica dos EUA. habilidade nos perímetros oeste, leste e sul da Eurásia simultaneamente.”
Mas foi exatamente o que aconteceu. Brzezinski também não conseguiu prever a ascensão de uma liderança nacionalista, como a de Putin, e o reerguimento econômico da Rússia, com base na grande afluência em petróleo e gás, e no posterior fortalecimento de algumas indústrias importantes, como siderurgia, indústrias metais-mecânicas, de transporte etc.
Nesse contexto, a Rússia não podia mais ser pressionada facilmente, como tinha acontecido na era de Boris Yeltsin.
Mesmo assim, essa pressão continuou, apesar das seguidas advertências em contrário de muitos analistas e políticos conservadores dos EUA.
Dessa maneira, a expansão da Otan para o Leste foi realizada de forma sustentada, apesar das promessas em contrário feitas por James Baker a Gorbatchev (“nenhuma polegada para o Leste”). Em 1999, Polônia, Hungria e República Tcheca foram incorporadas à Otan, apesar dos protestos russos. Numa grande segunda onda, concluída em 2004, Letônia, Estônia, Lituânia, Eslováquia, Eslovênia, Bulgária e Romênia também foram incorporadas, em meio a muitos protestos da Rússia. Em 2009, foi a vez da Albânia e da Croácia. Em 2020, Montenegro e Macedônia do Norte também foram incorporadas à Otan. Em 2024, foi a vez da Finlândia e da Suécia aderirem, já no contexto da guerra. Dos 12 membros iniciais, a Otan passou a contar com 32 membros.
Observe-se que a Otan foi criada em 1949, pelo Tratado de Washington, já no contexto do início da Guerra Fria. Seu grande objetivo era o de criar um pacto militar e político que fizesse frente à influência da URSS na Europa. Sua existência se justificava no quadro de um conflito geoestratégico que opunha os interesses dos EUA e seus aliados da Europa Ocidental aos interesses da URSS e seus aliados da Europa Oriental, corporificados, por seu turno, no Pacto de Varsóvia.
Finda a antiga Guerra Fria, após o colapso da URSS, o Pacto de Varsóvia foi extinto em 1991. Não obstante, a Otan não só foi mantida como consideravelmente expandida, apesar das promessas em contrário dos EUA.
Na conferência da Otan em Bucareste, realizada em 2008, a Rússia esperava que o organismo renunciasse a se expandir para a Ucrânia e para a........
