Caminhada do Silêncio: memória, necropolítica e a persistência da violência de Estado no Brasil

Toda última semana de março, quando se aproxima a data que marca o golpe civil-militar de 1964 — marco inaugural de um dos períodos mais sombrios da história republicana brasileira —, a cidade de São Paulo se transforma em palco de um dos mais densos e simbólicos atos políticos do país: a 6ª edição da Caminhada do Silêncio pelas Vítimas de Violência de Estado.

Realizada entre o antigo prédio do DOI-CODI, na Rua Tutóia, e o Monumento aos Mortos e Desaparecidos Políticos, no Parque Ibirapuera, a marcha não se limita a uma homenagem ritualística às vítimas da ditadura. Trata-se, antes, de um ato político de enfrentamento à política do esquecimento — uma prática coletiva de memória que se insurge contra o apagamento histórico e denuncia a continuidade das formas de violência de Estado no Brasil contemporâneo.

Em um país cuja transição democrática foi marcada por pactos de silêncio e pela institucionalização da impunidade, a Caminhada do Silêncio emerge como uma poderosa contranarrativa. Ao ocupar as ruas com corpos que se recusam a esquecer, o ato tensiona a narrativa oficial que tentou encerrar o passado autoritário sob o manto da conciliação.

Como nos ensina a filósofa judaico-alemã Hannah Arendt, o esquecimento deliberado não constitui apenas uma falha moral, mas um risco político profundo: ele permite a repetição do mal sob novas formas, frequentemente mais difusas e difíceis de identificar. No Brasil, esse esquecimento foi institucionalizado pela Lei da Anistia de 1979, que, ao equiparar vítimas e perpetradores, bloqueou a responsabilização dos agentes do terror de Estado.

A Caminhada do Silêncio, ao contrário, opera como um dispositivo de memória ativa. Criada pelo Movimento Vozes do Silêncio, ela transforma o espaço urbano em território pedagógico. Iniciar o percurso no antigo DOI-CODI — centro emblemático da repressão, onde a tortura foi sistematicamente empregada como política de Estado — constitui um gesto de reapropriação simbólica.

Ali, onde a violência foi administrada burocraticamente como parte de uma engrenagem estatal, a marcha reinscreve a memória como forma de resistência. O trajeto até o Monumento aos Mortos e Desaparecidos Políticos constrói, assim, uma verdadeira geografia da dor que, ao ser percorrida coletivamente, converte-se em geografia da denúncia.

Essa dimensão espacial da memória dialoga diretamente com as reflexões da socióloga argentina Elizabeth Jelin, para........

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