O mundo de 1945 está morrendo: qual será a nova ordem mundial?
A ordem construída a partir de 1945 – com a ONU, Bretton Woods (pacto econômico assinado em julho de 1944 por 44 países), FMI, Banco Mundial, GATT/OMC e um sistema de alianças liderado pelos Estados Unidos – está sofrendo uma erosão profunda. Ela sobrevive institucionalmente, mas seu poder está entrando em colapso: perdeu parte importante de sua capacidade de organizar o comportamento das grandes potências. O próprio debate internacional já passou a falar explicitamente em “multipolarização”. O Munich Security Report 2025 adotou justamente esse conceito para descrever a emergência de novos polos de poder e a crescente fragmentação política. E talvez seja mais preciso dizer que não estamos apenas diante do fim de uma ordem mundial, mas do intervalo perigoso entre duas ordens.
Como diz Fritjof Capra em seu bestseller Ponto de Mutação (inspirado na sabedoria tradicional chinesa do I Ching ou O Livro das Mutações), em todo e qualquer sistema chega um momento crítico de virada onde um ciclo de crise e declínio se esgota e dá lugar ao nascimento espontâneo de uma nova ordem, de forma harmoniosa com o tempo.
Mas essa harmonia sempre vem depois. O momento ou período da mudança costuma ser acompanhado por uma “crise de transformação” que quase nunca é isenta de dores, convulsões, contrações. Como acontece, em escala micro, para toda mulher grávida. O parto, quando ela deixa de ser gestante para se tornar mãe, é sempre um momento crítico que nunca acontece sem dor e um pouco de sangue derramado. Em escala macro, algo análogo acontece no parto de uma nova ordem mundial: padrões que envelheceram entram em colapso e desaparecem em agonia convulsiva cedendo lugar a um sistema novo. Isso é exatamente aquilo que estamos vivendo no atual momento histórico: um ponto de mutação.
O que está desaparecendo? A ordem de 1945 tinha uma arquitetura relativamente clara: Estados Unidos Europa Ocidental Japão constituíam o núcleo do sistema econômico e estratégico ocidental; a União Soviética representava o polo adversário durante a Guerra Fria; e, depois de 1991, durante algumas décadas, os EUA chegaram a exercer uma espécie de unipolaridade global.
Esse mundo está acabando. Não significa que os Estados Unidos tenham deixado de ser a maior potência. Continuam possuindo uma capacidade econômica, militar, tecnológica e financeira extraordinária. Mas já não conseguem definir sozinhos as regras do sistema internacional.
Há um dado eloquente: em 2025, os EUA ainda foram responsáveis por 33% dos gastos........
