A biopolítica do ultraimperialismo

Imperialismo e terraplanismo

Na atual época do Ocidente terraplanista mais do que nunca é indispensável compreender a importância irrecusável da negação da negação, relativamente ao sistema imperialista, que defino como o colonialismo na era do capitalismo mundial integrado, sendo que a sua versão dominante, a estadunidense, tem como principal “colônia” o inconsciente e com este o desejo deslocado da economia política e, portanto, das relações sociais de produção.

É, pois, a total negação do mundo que domina no contemporâneo. Trata-se de um tipo especial de servidão voluntária, para lembrar o título de uma obra de Étienne de La Boétie, autor de Discurso sobre a servidão voluntária, porque se expressa como representação sem lastro algum na realidade, como ficção, como cinema total; irrealidade total, irracionalismo total; e, nesse contexto como racismo total contra a realidade humana e natural.

Desde seus primeiros formuladores como John Hobson, de Imperialism: a study (1992), seguido por Rodolph Hilferding de O capital financeiro(1910), assim como Rosa Luxemburgo de A acumulação do capital (1913), Karl Kautsky de “Ultraimperialismo” (1914) e Vladímir Lênin de Imperialismo: etapa final do capitalismo (1916), não obstante as significativas diferenças interpretativas, um consenso estava pressuposto no que tange à análise da emergência do período imperialista do capitalismo ocidental, a saber: o imperialismo exporta capitais e capitais são ao fim e ao cabo a expressão financeira da civilização perante a barbárie, compreendendo como civilização a, obviamente, ocidental; e como barbárie os povos que foram colonizados no período expansionista europeu, o colonial, razão pela qual o imperialismo é uma particularidade ocidental, não podendo sob hipótese alguma ser identificado com a China e a Rússia, por exemplo, países que historicamente foram e são alvos do sistema colonial, capitalista e imperialista europeu-estadunidense.

O ocidental imperialismo “exporta”, também, populações, reatualizando os modelos coloniais de colonização de exploração e de povoamento, como foi o caso do Mandato britânico sobre a Palestina histórica e seu efeito fatal com o empoderamento do sionismo.

Essa ideologia da terra prometida, na era ianque da colonização do inconsciente, tornou-se o desejo comum, com as devidas diferenças, tanto da extrema direita quanto da esquerda woke com suas “diversidades” de gênero, étnica, ecológica; o desejo de um retorno romântico-reacionário ao Antigo Testamento, caso da primeira, da extrema direita; e o desejo ao retorno mítico-místico a 1620, como se fossem herdeiros escolhidos a dedo, como na Arca de Noé, para embarcar do Mayflower direto para excepcionalismo estadunidense, caso do esquerdismo woke, com o seu desejo de habitar em bolhas virtuais, imunes à realidade histórico-social.

A crise engendrada pela disputa interpaíses europeus (EUA em cena) à liderança do saqueio colonial dos povos, como é possível evidenciar considerando o seguinte fragmento de La expansión de Europa (1830-1914), obra de David K. Fieldhouse: “Antes de 1830, só existem cinco potências coloniais importantes. Em 1914 existiam dez, incluindo EUA, uma ex-colônia convertida em potência imperial” (FIELDHOUSE, 1990, p. 8).

A dupla crise do capitalismo, a interna, com a organização da classe trabalhadora; e a externa, com as guerras neocoloniais contra a maioria global, tornou-se dois referenciais inseparáveis a serem administrados pela burocracia imperialista do capital monopólico, razão por que a sua principal tarefa doravante deveria ser a negação total da história, compreendida como movimento, mudança, devir; e negação total da existência de classes sociais.

Isso na prática ocorreu da seguinte maneira com a........

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