A Paixão de Sexta-Feira

Quando eu era adolescente, todos os feriados eu saía com a minha turma para acampar.  

o cerrado tem rios incríveis, com corredeiras, cachoeiras, cânions com paredões de pedras gigantes, além de ostentar uma fauna e uma flora exuberantes. 

buscávamos, sempre,  a beira de um rio ou de um córrego, para armar as barracas e montar a nossa pequena comunidade hippie. 

passávamos o feriado todo fumando a erva do diabo, tomando banho de poço, se jogando de cachoeiras, tocando violão, bebendo vinho na boca da garrafa e experimentando chás de cogumelos mágicos.

anarquistas, éramos uma tribo sem cacique. 

à noite, recitávamos poesias, namorávamos as estrelas e dançávamos em volta da fogueira. 

quem cuidava da larica da molecada era o pequeno punkito. 

ele improvisava um fogãozinho rústico, feito de pedras, e fazia o melhor macarrão com sardinha do mundo.

a prova disso é que, quando adulto, punkito se tornou chefe de cozinha, comandando o restaurante de um dos hotéis mais tradicionais de brasília.

houve uma semana santa em que a moçada decidiu sair numa quinta-feira à noite e, dessa vez, não sei porque diabos, eu não tava muito afim de ir.

a amiga, helena de troia, passou em minha casa e pediu que eu a ajudasse a levar a barraca e as baganens dela até o ônibus da excursão.

chegando lá, a moçada não me deixou voltar pra casa.

tive que ir, só com a roupa do corpo, mas impus uma condição: só iria se deixassem o xis ir também.

por alguma razão que desconheço, a moçada não queria que ele fosse, mesmo que a irmã e a namorada dele tivessem no ônibus.

mas o malandro foi experto, amoleceu meu coração e me convenceu a convencer a galera. 

xis era, sem dúvida, o cara mais animado dentro do ônibus.

dessa vez fomos a uma cachoeira em cristalina, em goiás, nos arredores de brasília. 

chegamos já com a lua alta. 

armamos as barracas, tocamos violão, comemos, bebemos, dançamos e fomos para as barracas descansar, pra acordar bem cedo e desbravar a mata.

mas o xis preferiu ficar um pouco mais. 

ele se deitou nas pedras e passou horas a fio ali, inebriado com o barulho das águas.

no dia seguinte, fizemos uma aposta pra ver quem chagava mais rápido, à nado, para se sentar nas pedras debaixo da cachoeira. 

saltamos todos juntos e, ao chegar do outro lado, constatamos que faltava o xis. 

e tempo foi passando e nada dele nadando. 

lucky disse que viu quando xis saltou e que até chegou a tocar nele debaixo d'água, como se o xis tivesse preferido ir no mergulho.

mas aí, a irmã do xis apareceu, meio nervosa, e nos advertindo que não deixássemos o xis se aventurar no poço, porque ele não sabia nadar. 

"como assim, ele não sabe nada?" 

entramos em desespero. 

foi um corre-corre, um deus-nos-acuda, uma gritaria geral, ninguém sabia exatamente o que fazer.

até que, do nada, apareceu um adulto, que era bombeiro, perguntando o ponto exato onde o xis teria saltado.

o bombeiro mergulhou uma, duas, três vezes, até que, finalmente, emergiu com o corpo do nosso amigo.

fez-se um silêncio ruidoso. 

o ônibus só chegaria para nos buscar no domingo, e ainda era sexta-feira.

o carro do bombeiro havia quebrado.

a namorada do xis, num ato de amor e desespero, colocou o corpo dele no colo, como uma pietá, e ficou ninando ele até o final da tarde, quando chegou o socorro. 

uma imagem tragicamente linda e dolorosa! 

nunca mais acampei na semana santa. 

sempre me lembro dele nessa data, ele implorando pra ir, ele sorrindo no ônibus, ele inebriado com a cachoeira, à noite, ele saltando com a gente pela manhã. 

não, eu nunca me senti culpado pelo que aconteceu. 

ele sabia que não sabia nadar. 

e, no entanto, ele também não teve culpa.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.


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