Voto não tem patrão

Tem patrão que ainda acredita que, junto com a carteira assinada ou o contrato de trabalho, recebe também o direito de administrar a consciência dos trabalhadores. Contrata um empregado e imagina que levou um pacote completo, além da força de trabalho, o tempo, a opinião política e o voto. É uma prática antiga, autoritária e, felizmente, ilegal.

O nome disso é assédio eleitoral. E, ao contrário do que alguns insistem em fingir, não se trata de “manifestação política”, “liberdade de expressão” ou “direito de opinião do empresário”. Trata-se de abuso de poder. É a tentativa de transformar o medo do desemprego em cabo eleitoral. É usar o salário como instrumento de chantagem. É substituir o debate democrático pela ameaça velada — ou nem tão velada assim.

O problema ganhou enorme visibilidade nas eleições de 2018, 2022 e 2024, mas está longe de ser novidade. Ele apenas atualiza uma das mais velhas práticas da política brasileira conhecida como coronelismo. Se antes o coronel controlava o voto por meio da terra e da dependência econômica, hoje alguns empregadores tentam fazer exatamente a mesma coisa usando o crachá, o grupo corporativo de WhatsApp, o e-mail institucional, a reunião obrigatória e até a tela do computador da empresa. Mudam as ferramentas, mas a lógica continua a mesma.

É evidente que todo empregador tem direito às suas convicções políticas. O que ele não tem é autorização para usar o poder de contratar, demitir, promover, transferir, definir escalas, distribuir benefícios ou retirar direitos para influenciar a escolha eleitoral de quem depende daquele emprego para sustentar a família. A empresa compra trabalho. Não compra consciência. Muito menos o voto de ninguém.

As eleições presidenciais de 2018 foram um divisor de águas. Pela primeira vez, o país assistiu a uma sequência de casos em que empresários deixaram de apenas declarar apoio a candidatos para tentar conduzir politicamente seus próprios empregados. Situações que só vieram à tona graças à coragem de trabalhadoras e trabalhadores que se recusaram a se intimidar e denunciaram as práticas de assédio eleitoral, rompendo o silêncio que durante muito tempo protegeu esse tipo de abuso.

O episódio mais emblemático envolveu a Havan e seu proprietário, Luciano Hang. Segundo o Ministério Público do Trabalho, empregados participaram de reuniões, responderam pesquisas internas sobre intenção de voto e ouviram manifestações que relacionavam diretamente o resultado das urnas ao fechamento de lojas e à perda de milhares de empregos. A Justiça........

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