Quando o povo caminha, o Brasil caminha junto

Há momentos na história em que as ruas deixam de ser apenas estradas e se tornam destino. A Marcha da Classe Trabalhadora, realizada na última quarta-feira, 15 de abril, foi um desses momentos. Vindos de todos os cantos do país, de diferentes categorias e realidades, trabalhadores e trabalhadoras ocuparam a capital federal para dizer, em alto e bom som, que não abrimos mão de viver com dignidade.

Os representantes da classe trabalhadora entregaram ao presidente Lula não apenas um conjunto de reivindicações, mas um apanhado do Brasil real — aquele que acorda cedo, enfrenta jornadas longas, pega transporte lotado, vive endividado e, ainda assim, sustenta a economia com o suor de seu trabalho. Mas o recado não era para Lula; o presidente conhece nossa agonia. O recado era para o Congresso Nacional, que de Casa do Povo não tem mais nada. Uma instituição criada para representar a maioria, mas que foi desvirtuada vertiginosamente e agora legisla em prol dos empresários, do capital financeiro, do agronegócio, dos aliados... menos pelo povo brasileiro.

Esperamos que deputados e senadores tenham visto o mar de gente que tomou conta da Esplanada dos Ministérios. Esperamos que tenham sentido a força que emana desse povo que não foge à luta e que tenham estremecido ao lembrar que, nos últimos anos, pautas fundamentais foram ignoradas — pautas que poderiam diminuir o jugo de milhões de brasileiros e brasileiras que hoje apenas sobrevivem, sem tempo para viver.

E é justamente por isso que marchamos. Porque sabemos que nenhum direito nasce do silêncio. Aprendemos, a duras penas, que nada nos foi dado — tudo o que conquistamos até aqui foi fruto de muita luta. A pauta apresentada — que inclui o fim da escala 6x1, com redução da jornada de trabalho e sem perdas salariais, o fortalecimento da negociação coletiva e a ampliação de políticas de emprego e renda — não surge do acaso, mas da urgência de quem sente no corpo o peso das desigualdades e já se cansou de esperar.

Não se trata de ideologia ou lado, mas de realidade concreta. O Brasil ainda convive com níveis elevados de endividamento das famílias, com jornadas exaustivas e com uma rotina que esgota o indivíduo e o torna improdutivo. Trabalhar seis dias para descansar apenas um não é exceção — é regra. E é uma regra que adoece, desgasta e rouba tempo de vida.

Por isso, nos organizamos. Porque a história já nos ensinou que direitos não são concessões, são conquistas. Férias, 13º salário, descanso semanal, aposentadoria — tudo isso foi um dia tratado como ameaça à economia. E, no entanto, foi justamente a ampliação desses direitos que fortaleceu o país, dinamizou o consumo e deu dignidade a milhões.

Há, nisso tudo, algo de profundamente humano. Lutamos não apenas por melhores salários ou jornadas menores, mas pelo direito de existir para além do trabalho. Pelo direito de estar com a família, de descansar sem culpa, de sonhar com um futuro possível.

A Marcha da Classe Trabalhadora também revela, de forma estratégica, que nenhum projeto de país se sustenta sem o povo organizado. Um governo comprometido com a valorização do trabalho precisa de base social ativa, mobilizada e consciente. É nas ruas que se constrói força política. É nas ruas que se protege e se impulsiona um projeto de reconstrução nacional. É nas ruas que se reafirma o valor do voto.

E se é verdade que o presidente Lula já havia dado um passo importante ao enviar o projeto do fim da escala 6x1 para o Congresso, também é verdade que a força da marcha — com milhares de trabalhadoras e trabalhadores vindos de todo o Brasil — fez ecoar esse clamor coletivo, transformando-o em pressão concreta. Porque, no fim das contas, quando o povo se levanta, nenhum poder consegue fingir que não ouviu.

Seguimos, portanto, em marcha. Quando a classe trabalhadora se organiza, não há retrocesso que resista. E, quando ocupa as ruas, o Brasil não apenas caminha junto — ele avança. Às vésperas de uma eleição, cada atitude ganha ainda mais peso. A classe trabalhadora observa, aprende e escolhe — e quem ignora a vontade popular dificilmente encontra o caminho de volta.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.


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