Uma grande derrota estratégica |
Fazem três décadas, pelo menos, que Benjamin Netanyahu conspira continuamente para convencer o governo norte-americano a participar de um ataque conjunto, massivo, relâmpago, e devastador, contra o Irã. E acabou conseguindo persuadir o presidente Donald Trump de que obteria uma vitória rápida e uma mudança quase instantânea do regime iraniano depois que a aviação israelense assassinasse – nos primeiros minutos do combate – as principais lideranças religiosas, civis e militares do povo persa. Promovendo a instalação de um governo títere que destruísse o programa nuclear e o sistema de defesa balístico iraniano, e que suspendesse seu apoio ao “eixo da resistência” à Israel, no Líbano, no Iraque e no Iêmen.
Mas nada disto aconteceu depois do ataque surpresa do dia 28 de fevereiro de 2026. Pelo contrário, passados quase três meses do início do conflito, pode-se dizer – do ponto de vista dos objetivos declarados pelas potências agressoras – que Israel e Estados Unidos sofreram uma grande derrota estratégica. As autoridades assassinadas foram substituídas rapidamente, o programa nuclear iraniano não foi desativado, seu sistema de produção e defesa balístico não foi destruído, as suas reservas de uranio enriquecido não foram localizadas, e o Irã segue apoiando seus aliados do “eixo da resistência”.
Além disto, os mísseis e drones iranianos atingiram, destruíram ou danificaram pesadamente todas as bases americanas ao redor do Golfo Pérsico, além de terem “vazado” o sistema de defesa aérea de Israel – o Iron Dome, que era considerado indevassável.
Por outro lado, apesar do bombardeio, massivo e contínuo do território iraniano, durante mais de um mês de combate o Irã ainda mantém – segundo a inteligência americana – 70% de seus lançadores móveis em todo o país, e conserva cerca de 70 % do seu arsenal do pré-guerra. E além disto, conseguiu restabelecer o acesso operacional de 30 de seus 33 locais de mísseis ao longo do Estreito de Ormuz, tendo recuperado o acesso a 90% de suas instalações militares subterrâneas. E apesar da destruição causada pelos bombardeios, o Irã conquistou uma vitória extraordinária ao assumir o controle militar e a soberania econômica sobre o Estreito de Ormuz.
Por tudo isto, os norte-americanos, mais do que os israelenses, encontram-se neste momento num “beco sem saída”, sem o apoio de sua própria população e divididos entre a alternativa de prosseguir indefinidamente uma guerra impopular, ou aceitar uma retirada e um acordo de paz que eles consideram humilhante. Uma posição estratégica extremamente desconfortável, agravada pelo fato que neste momento é o Irã que está “dando as cartas” nas negociações de paz intermediadas pelo Paquistão, e sustentadas pela China.
Neste momento paira no ar uma enorme incerteza om relação ao desfecho desse conflito, mas o mais provável é que a guerra prossiga por tempo indeterminado. Assim mesmo, o terremoto mundial provocado pela vitória estratégica do Ira, e sobretudo pelo seu controle do Estreito de Ormuz, produziu três sequelas, pelo menos, que já são irreversíveis.
A primeira, é que ficaram explícitos os limites do poder militar norte-americano, mesmo no caso de uma guerra assimétrica, o que atinge em cheio o projeto de supremacia militar global de Donald Trump. A segunda, é que Israel perdeu a aura de sua invencibilidade, depois que sua estratégia dos assassinatos seletivos fracassou, e depois que seu sistema de defesa foi vazado, e depois que suas bases militares foram atingidas, dentro do próprio território israelense. E a terceira é que o Irã já conquistou uma nova posição hierárquica dentro do mapa geopolítico do Oriente Médio que nascerá desta guerra, com relação aos países árabes, e com relação a Israel.
Mais além destas consequências imediatas, os efeitos em cadeia desse grande erro estratégico norte-americano foram bem além do Oriente Médio. Parece não haver dúvida, por exemplo, que cresceu em todo mundo a desconfiança dos países que dependem da “proteção militar’ dos EUA, como é o caso exemplar de Taiwan. Haja vista que durante a guerra, a líder do principal partido de oposição de Taiwan, (o partido nacionalista Kuomitang (KMT) fundado por Sun........