O quarto voto da urna dura o dobro do último
Nos últimos 60 dias, a imprensa e seus articulistas já avançaram intensamente sobre o bolsonarismo como organização digital, os algoritmos e a inteligência artificial na campanha, a interferência trumpista, a soberania nacional, Lula versus Flávio Bolsonaro, a possibilidade de vitória de Lula no primeiro turno, a sobrevivência do bolsonarismo, Tarcísio projetado para 2030, a renovação da esquerda e a necessidade de disputar Câmara e Senado. O próprio Brasil 247 publicou, por exemplo, “O Partido Digital Bolsonarista” e “O algoritmo já decidiu a eleição de 2026?”, ambos colocando, por caminhos distintos, a infraestrutura digital, informacional e cognitiva no centro da disputa política. Tudo isso é muito — e extremamente — importante. O Senado também já entrou no debate, inclusive quanto à sua futura composição e às consequências institucionais que diferentes maiorias poderiam produzir. Mas há algo para o qual ainda quase ninguém parece ter se atentado: a eleição de 2026 contém temporalidades diferentes de poder e talvez o voto politicamente mais duradouro que o brasileiro dará seja justamente um daqueles sobre os quais menos se fala.
No dia 4 de outubro, quando entrar diante da urna eletrônica, o eleitor fará seis escolhas. A primeira será para deputado federal; a segunda, para deputado estadual ou distrital; a terceira, para senador; a quarta, novamente para senador; a quinta, para governador; e somente a sexta e última será para presidente da República. Essa é a ordem oficial estabelecida para as eleições gerais de 2026. Há alguma coisa de politicamente desconcertante nessa sequência quando a confrontamos com a quantidade de atenção dispensada a cada uma dessas escolhas. A campanha nacional é construída quase integralmente em torno da última tela. São Lula, Flávio Bolsonaro e os demais candidatos presidenciais que ocupam a televisão, as manchetes, as redes sociais, os levantamentos de intenção de voto, os debates, as conversas familiares e a guerra cotidiana de narrativas. O último voto parece conter toda a eleição.
O presidente que sair daquela urna receberá um mandato de quatro anos. Os senadores que aparecerão duas telas antes receberão oito. Em 2026, serão renovadas 54 das 81 cadeiras do Senado Federal, correspondentes a dois terços da Casa. Cada estado e o Distrito Federal elegerão dois senadores, pelo sistema majoritário: os dois candidatos mais votados em cada unidade da Federação serão eleitos. E cada um deles permanecerá no cargo por oito anos. Eis a primeira dimensão daquilo que talvez estejamos deixando escapar: o quarto voto dado pelo brasileiro na urna produzirá efeitos durante o dobro do tempo do sexto.
Parece apenas uma curiosidade aritmética. Não é.
Os senadores eleitos em outubro de 2026 tomarão posse em 2027 e permanecerão no Senado até 2035. Isso significa que atravessarão integralmente não apenas o mandato do presidente escolhido neste ano, mas também todo o mandato presidencial seguinte. O presidente eleito em 2030 encontrará dentro do Congresso 54 senadores cuja legitimidade eleitoral terá sido produzida quatro anos antes, numa eleição da qual esse futuro presidente talvez sequer tenha participado como candidato. A urna de 2026, portanto, decidirá uma parte substancial da correlação institucional de forças do Brasil de 2034.
Essa talvez seja a melhor maneira de compreender a singularidade desta eleição: 2026 realizará simultaneamente uma eleição de quatro anos e uma eleição de oito anos. Uma terminará politicamente em 2030; a outra chegará a 2035.
Nossa percepção, porém, não parece funcionar dessa maneira. A eleição é apresentada ao eleitor como um acontecimento cujo centro gravitacional é a Presidência da República. Toda a narrativa converge para uma pergunta: quem governará o Brasil a partir de janeiro? Quando essa pergunta é respondida, temos a sensação de que conhecemos o resultado essencial da eleição. Os demais números aparecem na noite da apuração quase como complementos: quantos governadores cada campo elegeu, qual será o tamanho das bancadas, quem entrou para o Senado. A Presidência fornece a fotografia da vitória e da derrota.
O problema é que o poder não se organiza fotograficamente.
Ele se organiza no tempo.
E, quando introduzimos o tempo na análise, a hierarquia da eleição........
