Morte assistida e a objetização do ser humano
Há temas em que a sociedade contemporânea revela, com nitidez desconcertante, a sua miséria moral. A defesa da morte assistida, muitas vezes apresentada como gesto de autonomia, lucidez e compaixão, é um deles. Sob a aparência de humanismo, esconde-se frequentemente uma concepção brutalmente empobrecida da existência humana: a de que viver vale a pena apenas enquanto o corpo funciona, a dor é suportável e a independência física permanece preservada.
Essa lógica, ainda que revestida por uma linguagem de direitos, dignidade e liberdade, reduz o ser humano a um conjunto de funções. A vida passa a ser medida por critérios de desempenho biológico, motor e orgânico. Quando esses elementos falham, fala-se então em “perda da dignidade”. Mas é precisamente aí que se instala o equívoco mais grave: confundir dignidade humana com capacidade física, autonomia corporal ou eficiência biológica.
A dignidade não desaparece quando o corpo fraqueja. Não se dissolve diante da limitação motora, da dor crônica, da dependência ou da fragilidade. Se assim fosse, teríamos de admitir que milhões de seres humanos que nascem sob severas limitações físicas, neurológicas ou sensoriais já nasceriam com uma vida diminuída em valor. E isso seria moralmente monstruoso.
O ponto central é que a defesa da morte assistida não surge no vazio. Ela floresce numa cultura que, há décadas, vem reduzindo o valor humano à produtividade, à autonomia, à performance e ao controle. O capitalismo tardio não mercantilizou apenas o trabalho; ele colonizou a própria ideia de vida digna. Passou-se a pressupor, ainda que silenciosamente, que vale mais quem produz, quem se basta, quem circula sem depender, quem não pesa sobre ninguém, quem não exige cuidado excessivo, quem não interrompe a fluidez dos ritmos sociais da utilidade e do consumo.
Nesse horizonte, a velhice dependente, a deficiência severa, a doença incapacitante e a dor prolongada deixam de ser experiências humanas que convocam solidariedade e passam a ser tratadas como estados de vida diminuída. O sujeito já não é visto em sua inteireza, mas a partir do que ainda consegue fazer. Sua humanidade passa a ser filtrada pela régua da funcionalidade.
É aqui que a retórica da “morte digna” se torna especialmente perigosa. Porque, por trás dela, pode estar se escondendo uma noção indigna de dignidade. Se a dignidade for tomada como........
