1º de Maio – Chapeando o pires da esmola: a maioria trabalhadora e o direito de governar a economia
Olhar para a experiência do Bolsa Família vê-se que contém uma intuição política mais profunda do que sua aparência administrativa deixa transparecer. Ao priorizar a mulher como titular do benefício, o Estado brasileiro reconheceu que a gestão doméstica do dinheiro não é neutra: numa sociedade marcada pelo patriarcado, entregar renda à mulher significava deslocar poder, reduzir dependência econômica e proteger o orçamento familiar da captura masculina. Em 2024, o Bolsa Família chegou a 32 milhões de mulheres, 58,2% do público atendido; 17,3 milhões de famílias beneficiárias eram chefiadas por mulheres, equivalentes a 83,27% do total. (Serviços e Informações do Brasil)A pergunta que se impõe é: por que essa inteligência política não é aplicada ao conjunto da economia? Se o governo reconhece que a concentração do dinheiro nas mãos de quem historicamente domina a família produz submissão, por que continua aceitando que a concentração dos recursos públicos nas mãos de quem historicamente domina a economia produziria desenvolvimento, emprego e progresso?
O orçamento público brasileiro ainda se organiza em torno de uma ficção: a de que a elite econômica seria a grande gestora racional da riqueza social. O povo aparece como destinatário de “assistência”; os bancos, grandes empresas, fundos, setores organizados e rentistas aparecem como “agentes econômicos”. A maioria trabalha, consome, paga imposto, sustenta a demanda, movimenta o comércio e forma a base material da economia; mas, quando chega a hora de decidir o destino do dinheiro público, é tratada como incapaz. A elite, minoria numérica, apresenta-se como administradora natural dos recursos coletivos.
Essa narrativa precisa ser enfrentada sem o sofisma segundo o qual “sem o capital não haveria emprego e renda”, como se o capital fosse fonte autônoma da riqueza e o trabalhador apenas receptor passivo de uma dádiva salarial. O capital não presenteia o trabalhador com renda: ele compra sua força de trabalho porque dela necessita. O salário não é favor, filantropia, benevolência empresarial ou concessão moral do empregador. É a forma monetária pela qual se remunera — quase sempre de modo inferior ao valor social efetivamente produzido — a entrega concreta de energia, tempo, técnica, inteligência, força física, atenção, risco, criatividade e vida.
O trabalhador não recebe porque o capital é generoso; recebe porque trabalha. E, se trabalha, produz valor. O salário expressa precisamente esse reconhecimento contratual: há ali uma entrega real, mensurável, economicamente indispensável. O capital pode deter máquinas, imóveis, crédito, tecnologia, marcas e títulos de propriedade; mas nada disso se converte em riqueza social sem trabalho humano direto ou acumulado. A fábrica parada não produz. O aplicativo sem motorista, entregador, programador, atendente, usuário e infraestrutura social não gera valor. O banco sem assalariados, correntistas, tomadores de crédito, consumo e Estado garantidor não se sustenta. A empresa sem trabalhadores não é motor econômico: é patrimônio inerte.
Os números desmontam a mitologia de que a elite econômica alimenta sozinha o país. Em 2024, o PIB brasileiro cresceu 3,4% e chegou a R$ 11,7 trilhões. Pela ótica da demanda, o consumo das famílias somou aproximadamente R$ 7 trilhões, enquanto a Formação Bruta de Capital Fixo — o investimento em máquinas, construções, equipamentos e outros ativos — ficou em torno de R$ 2 trilhões. A taxa de investimento foi de 17% do PIB. Em termos materiais, a despesa das famílias representou cerca de 60% do PIB, contra 17% do investimento. (Agência de Notícias - IBGE)
Esse dado é decisivo. A engrenagem movida pelas famílias brasileiras teve peso mais de três vezes superior ao investimento formal na composição da demanda nacional. A ideologia dominante costuma apresentar o empresário, o investidor, o acionista, o banqueiro e o grande proprietário como se........
