Thomas More e Darcy Ribeiro em diálogo histórico-filosófico

A utopia, como ideia-força da imaginação humana, nunca foi apenas uma fantasia projetada sobre o impossível. Desde sua origem, ela opera como método de crítica, mecanismo de diagnóstico e impulso de esperança, funcionando como uma lente que ilumina as fissuras da realidade e sugere caminhos para superá-las. Nesse horizonte, Thomas More e Darcy Ribeiro, separados por quatro séculos, surgem como integrantes de uma mesma linhagem intelectual, a dos que recusam o mundo como dado e o reinventam como tarefa histórica.

Ao conceber o termo utopia e dar-lhe sua primeira forma literária, Thomas More funda o gesto utópico moderno. Darcy Ribeiro, ao refazê-lo nas condições brasileiras, transforma esse gesto em ação política, projeto civilizatório e luta concreta. Entre ambos, estende-se uma ponte que atravessa tempo, geografia e cultura, sustentada por uma convicção comum: imaginar outros mundos é condição indispensável para não sucumbir ao mundo tal como ele se apresenta.

Quando More publica Utopia, em 1516, não cria apenas um lugar imaginário. Forja um instrumento filosófico de extraordinária potência crítica. Sua ilha, esse “não-lugar” que é, paradoxalmente, um lugar possível, funciona como espelho irônico lançado sobre a Europa........

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