O golpe já começou
A trama que culminou no 8 de janeiro previa assassinar Lula, Alckmin e Moraes. Agora, redes coordenadas, grupos extremistas, inteligência artificial e Donald Trump criam as condições para contestar uma possível vitória de Lula e tentar de novo impedir sua posse.
Ninguém imaginava que uma multidão invadiria o Capitólio para impedir que o Congresso dos Estados Unidos confirmasse a vitória de Joe Biden. Aconteceu em 6 de janeiro de 2021, no país que se apresenta como a maior democracia do mundo.
Ninguém imaginava que uma multidão atravessaria livremente a Praça dos Três Poderes, invadiria o Congresso, o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal e destruiria o patrimônio público para tentar reverter a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva. Aconteceu em 8 de janeiro de 2023, em Brasília.
Não foi uma manifestação que escapou ao controle. Foi uma tentativa de golpe de Estado contra Lula, empossado presidente exatamente uma semana antes, em 1º de janeiro. Os invasores pretendiam criar as condições para uma intervenção militar e derrubar o governo constitucional recém-instalado.
O ataque foi a culminação de uma trama golpista mais ampla. Um de seus documentos mais brutais, o plano Punhal Verde e Amarelo, previa, segundo a investigação, o assassinato do presidente eleito Lula, do vice-presidente eleito Geraldo Alckmin e do ministro Alexandre de Moraes. O plano é anterior à posse e não foi elaborado especificamente para o 8 de janeiro, mas revela até onde a conspiração estava disposta a chegar.
Depois dos dois ataques, vieram as perguntas: como foi possível? Por que os sinais não foram levados a sério? Por que as instituições não impediram o que estava sendo anunciado diante de todos?
Agora, a duas semanas da eleição presidencial brasileira de 2026, outra pergunta precisa ser feita: outro 8 de janeiro está sendo preparado?
Não há, até agora, prova pública de uma operação completa, com comando central, financiadores, ônibus, acampamentos, adesão militar ou policial e um plano para ocupar novamente os Poderes. O primeiro 8 de janeiro não começou em 8 de janeiro. O próximo, se vier, também terá começado antes. É nesse sentido que o golpe já começou: não como uma operação completa e comprovada, mas como a produção das condições políticas, digitais e internacionais que poderiam permitir a ruptura.
O ataque começa antes da invasão
O Capitólio foi precedido por meses de acusações de fraude eleitoral sem provas, pressão sobre autoridades estaduais, tentativa de impedir a certificação da vitória de Biden e mobilização permanente dos seguidores de Donald Trump.
O 8 de janeiro brasileiro também começou muito antes. Jair Bolsonaro atacou as urnas eletrônicas, desacreditou o Tribunal Superior Eleitoral, recusou-se a reconhecer claramente a derrota, estimulou a desconfiança de seus eleitores e deixou atrás de si bloqueios de estradas, acampamentos diante dos quartéis e pedidos de intervenção militar. Antes da invasão, houve até uma tentativa de atentado a bomba no aeroporto de Brasília na véspera do Natal, em 24 de dezembro de 2022.
O método é conhecido: primeiro se convence uma parcela da população de que a derrota só poderá resultar de uma fraude. Depois, transformam-se os tribunais e as autoridades eleitorais em inimigos. Por fim, apresenta-se a violência como uma reação “legítima” de cidadãos supostamente roubados.
Em 2026, a preparação da narrativa voltou.
A fabricação de........
