Honestino: ditadura nunca mais |
Assisti ao filme Honestino. Não saí do cinema apenas emocionado. Saí indignado.
Emoção é uma experiência íntima. Indignação é uma tomada de posição. E o filme de Aurélio Michiles não nos pede apenas que nos comovamos com a história de um jovem brilhante assassinado aos 26 anos. Exige que chamemos pelo nome aquilo que o Estado brasileiro fez.
Honestino Guimarães não “desapareceu”. Foi capturado por agentes do Estado. Foi torturado. Foi assassinado. Seu corpo foi ocultado. Sua família foi condenada a uma espera sem sepultura. E, durante décadas, o país conviveu com esse crime como se o silêncio pudesse funcionar como uma forma de absolvição.
O filme corrige essa gramática da ditadura. O que a repressão chamava de prisão era sequestro. O que chamava de interrogatório era tortura. O que apresentava como confronto era execução. E o que registrava como desaparecimento era assassinato acompanhado da ocultação do cadáver.
Para mim, essa história não está apenas nos documentos, nos arquivos ou na tela do cinema.
O homem por trás do símbolo
Conheci Honestino em 1966 e 1967. Naquele tempo, ele ainda não era um símbolo nacional da resistência.
Era o Barbudinho, como eu o chamava.
Por isso, ao assistir ao filme, não vi apenas a história de um líder estudantil. Reencontrei o rosto de um jovem que conheci e de uma geração à qual pertenci — e que o Estado brasileiro tentou destruir.
A maior qualidade do filme está em não transformar Honestino numa estátua. Antes de se tornar símbolo, ele foi um jovem. Um estudante de inteligência extraordinária. Um dirigente político. Um leitor. Um homem que escrevia cartas e poemas. Um amigo capaz de falar de política, literatura, música e cinema. Um pai impedido de ver a filha crescer.
A ditadura precisava desumanizar seus adversários para poder eliminá-los. Chamava-os de subversivos, terroristas, inimigos internos. Aurélio Michiles percorre o caminho inverso: devolve a Honestino o rosto, a voz, os afetos, as dúvidas, os sonhos e a condição humana.
As cenas interpretadas por Bruno Gagliasso estão subordinadas às cartas, aos poemas, às imagens de arquivo e aos depoimentos. O ator não tenta substituir Honestino, tarefa impossível. Empresta-lhe provisoriamente o corpo e a voz.
Nenhuma interpretação consegue competir com a brutalidade do que realmente aconteceu. A montagem de André Finotti, premiada no Festival do Rio, transforma fragmentos dispersos numa acusação coerente: a juventude, a Universidade de Brasília, as invasões do campus, a organização estudantil, as prisões, a clandestinidade e o desaparecimento formam uma sequência de ação e reação.
O filme também mostra algo que ainda precisa ser repetido: a violência da ditadura não começou com o AI-5. Antes de dezembro de 1968, estudantes já eram perseguidos, espancados, presos e torturados. O endurecimento do regime não inaugurou a repressão. Apenas lhe concedeu uma licença ainda mais ampla para matar.
Foi a ditadura que fechou os espaços de participação, destruiu as organizações legais, invadiu universidades, cassou direitos, suprimiu eleições e empurrou milhares de brasileiros para a clandestinidade.
Primeiro, o regime proibiu a política.
Depois, acusou de criminosos aqueles que continuaram fazendo política.
O retorno do Barbudinho
Honestino ainda cruzaria meu caminho uma última vez.
Era um dia de 1972. Eu já namorava Maria Luiza Falcão, minha companheira há mais de cinquenta anos, quando surgiu uma notícia inesperada. Um primo de Maria Luiza, antigo colega de Honestino em Brasília, chegara com........