A joia da coroa
Durante décadas, as eleições presidenciais brasileiras foram disputadas essencialmente dentro das fronteiras nacionais. Partidos, empresários, movimentos sociais e lideranças políticas definiam os rumos da sucessão presidencial. A política externa influenciava o ambiente, mas permanecia em segundo plano.
Em 2026, esse quadro mudou.
Pela primeira vez desde a redemocratização, a disputa pelo Palácio do Planalto passou a integrar uma competição geopolítica mais ampla, na qual Estados Unidos e China disputam influência sobre a América do Sul. É nesse contexto que o Brasil ocupa uma posição singular.
A estratégia trumpista
No final de 2025, a administração Donald Trump divulgou sua nova Estratégia de Segurança Nacional. O documento parte de um diagnóstico claro: os Estados Unidos enfrentam uma competição estratégica com a China, perderam influência em diversas regiões do mundo e pretendem recuperá-la, sobretudo no Hemisfério Ocidental.
Dentro dessa estratégia, a América Latina voltou ao centro da política externa norte-americana. E nenhum país possui peso comparável ao Brasil.
Maior economia da região, integrante dos BRICS e principal parceiro da China na América Latina, o Brasil reúne recursos naturais estratégicos, capacidade industrial, liderança regional e projeção internacional que o transformam em peça decisiva da disputa entre Washington e Pequim.
O cientista político Pedro Costa Júnior sintetizou essa realidade numa expressão que resume o momento: o Brasil tornou-se a joia da coroa.
A metáfora ajuda a compreender por que episódios aparentemente desconexos — tarifas comerciais, pressões diplomáticas, ofensivas contra os BRICS, disputas em torno das plataformas digitais, aproximação entre Donald Trump e Flávio Bolsonaro e crescente interesse norte-americano pelo processo eleitoral brasileiro — revelam uma mesma estratégia.
Desde seu retorno à Casa Branca, Trump recolocou a América Latina entre as prioridades de Washington. O objetivo declarado é conter a expansão da influência chinesa e recuperar a liderança norte-americana sobre o continente.
Nesse cenário, o Brasil assume uma posição decisiva.
Hoje, o Brasil permanece fora do conjunto de governos de direita, centro-direita ou extrema direita que, em diferentes graus, mantêm alinhamento político com Washington. Nenhum outro país da América do Sul reúne, simultaneamente, liderança regional, participação nos BRICS e uma parceria estratégica tão profunda com a China.
Por isso, a eleição presidencial de 2026 passou a envolver muito mais do que a escolha do próximo........
