Românticos e Picaretas: as análises furadas da guerra no Oriente Médio

Existe uma figura recorrente nos debates sobre conflitos internacionais que poderíamos chamar de romântico geopolítico. Ele não é necessariamente mal-intencionado. Às vezes é um intelectual brilhante, um militante dedicado, um jornalista comprometido. Mas sua forma de ler o mundo sofre de um defeito estrutural grave: a incapacidade de realizar cálculos de causa e consequência ancorados na materialidade dos fatos. O romântico opera pela lógica do desejo — ele analisa o que quer que aconteça, não o que pode ou vai acontecer. E o problema mais sério desse traço não é epistemológico, mas ético: o romântico geopolítico, invariavelmente, rifa os corpos, os sonhos e as vontades dos outros — os que estão morrendo de verdade — em nome dos seus próprios projetos de futuro. Ele converte o cadáver alheio em símbolo da sua utopia e, ao fazê-lo, torna-se, sem perceber, um agente da perpetuação do conflito.

Ao lado do romântico existe o picareta analítico — talvez ainda mais perigoso porque ocupa mais espaço na mídia. O picareta é o tudólogo: aquele que fala com a mesma desenvoltura sobre o Hamas, sobre o PIB iraniano, sobre a doutrina militar israelense, sobre as ramificações jurídicas da guerra, sobre petróleo e sobre teoria política islâmica. Ele não tem compromisso com dados, com metodologia ou com qualquer tradição teórica coerente. Sua marca registrada é a platitude — a frase de efeito que o interlocutor já quer ouvir — e seu método secreto é o chute calibrado: escolhe sempre os outcomes com pelo menos 50% de probabilidade de ocorrência, de modo que, quando acerta, reivindica a previsão, e quando erra, muda de assunto sem deixar rastro. Não há accountability no mundo do picareta. Ele existe para ser consumido, não para ser verificado.

É com essas duas figuras em mente que precisamos dissecar algumas das análises mais recorrentes — e mais perigosas — que circulam hoje sobre a guerra no Oriente Médio. 

1. "O Irã está vencendo" (ou "pode vencer")

Poucas afirmações revelam tão claramente o divórcio entre desejo e realidade quanto essa. Dizer que o Irã está vencendo o conflito em curso — ou que tem capacidade real de vencê-lo — não é apenas uma análise equivocada: é uma insanidade metodológica que ignora as condições materiais mais básicas do confronto.

Comecemos pelo óbvio: o Irã perdeu, em tempo relativamente curto, seus ativos mais estratégicos na região. O Hezbollah — décadas de construção, decenas de bilhões de dólares em treinamento e armamento — foi militarmente degradado de forma sem precedentes. O Hamas, enquanto força militar organizada, foi destruído como entidade operacional coerente em Gaza. A Síria de Assad, eixo logístico fundamental da projeção iraniana, colapsou. O próprio território iraniano foi atingido diretamente por Israel em múltiplas ocasiões, com as defesas aéreas mostrando limites reais. O líder supremo Ali Khamenei........

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