É tudo uma questão de memória

Ontem, no plenário do Supremo, o placar estava quatro a quatro quando Flávio Dino pediu vista. Eu estava lá, sentado, olhando as togas. Quatro ministros queriam juntar num só processo as petições que tratam de Moraes e de Mendonça; quatro queriam mantê-las separadas, cada uma com seu relator, cada uma com sua sorte. Toffoli e Nunes Marques fora do jogo. Gilmar disse que até a máfia tem ética. Cármen Lúcia pediu desculpas ao povo brasileiro (fazendo uma cena histórica que não condiz com o papel dela no STF). E o povo brasileiro, do lado de fora, não sabia bem do que ela estava se desculpando, porque não lembra de quase nada do que trouxe o país até aquela sala.

É disso que quero tratar. Não da questão de ordem, que os jornais de amanhã vão mastigar, mas do que não está nos autos.

O que se lembra e o que se esquece

Estamos, nesta eleição, tendo que rediscutir cada ponto do nosso passado. O distante e o recente. A ditadura precisa ser provada de novo, o golpe de 2016 precisa ser provado de novo, a pandemia precisa ser provada de novo, e há gente pedindo que se prove que houve tentativa de golpe em janeiro de 2023 como se as câmeras da Praça dos Três Poderes tivessem sido um filme. É verdade que a ressignificação da memória é ferramenta de guerra do fascismo desde que ele existe: a Itália de Mussolini inventou uma Roma, a Alemanha inventou uma Idade Média, e os nossos inventaram um 1964 sem porões. Mas o fato de o adversário usar a ferramenta não explica por que deixamos a nossa oficina inutilizada.

As pessoas não lembram mais da fila do osso no governo Bolsonaro. Não lembram do caminhão de carcaça parado em Cuiabá com gente disputando o que sobrava com os cachorros, em pleno 2021, num país que tinha sido o maior exportador de proteína do planeta. Não lembram das mais de quatrocentas mil mortes a mais do que a média do mundo na pandemia, que não foram fatalidade nem vírus chinês, mas resultado direto e exclusivo das decisões de um presidente e do seu ministro da saúde, o Pazuello, aquele em que “um mandava e o outro obedecia”. Não lembram do dinheiro público jogado na campanha de 2022, dos benefícios inflados em ano eleitoral, do teto furado por uma emenda constitucional feita à toque de caixa e sem ninguém a fiscalizar, nem lembram das blitz da Polícia Rodoviária Federal parando ônibus de eleitor no Nordeste no dia do segundo turno. Não lembram da relação direta de Bolsonaro, que tinha rabo preso com o Rio de Janeiro até o talo, com os esquemas criminosos da Zona Oeste, com o Queiroz, com os cheques, com a vizinha do condomínio ou a “micheque” dos 12 mil. Cada um desses fatos deveria estar assentado na memória do país como está assentado o Watergate na memória dos norte-americanos ou o caso Dreyfus na dos franceses. Não está. Cada um deles precisa ser re-explicado de novo a cada peça de campanha, a cada entrevista, a cada mesa de bar, e a explicação chega sempre com a cara de acusação de “petista”, e não de história. Isso não é um detalhe da campanha. É a campanha inteira. Muita energia para discutir o que passou e quase não sobra tempo para discutir daqui pra frente. Ganha quem está feliz com o que........

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