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“Eram senhoras, crianças, rapazes, moças... Como se fosse um piquenique, um arrastão em direção à Praça dos Três poderes”. A descrição do cenário do ato de terror acontecido no dia 8 de janeiro de 2022, que depredou os prédios dos principais poderes da capital federal, feita pelo ainda ministro da Defesa, José Mucio, não combina com a apuração dos fatos consolidada num relatório da Abin, com base nas investigações das Polícias: Federal e Civil-DF.

Longe desse quadro quase pastoril saído da observação do ministro, o que salta do trabalho de investigação é a participação de ex-paraquedistas, apelidados de “boinas vermelhas”, armados e bem treinados. Esses homens foram os responsáveis pela montagem e organização dos acampamentos nas portas dos quartéis. Os mesmos que o ministro disse ter sido frequentado por “amigos e parentes” dele. E que os comandos das Forças Armadas em nota no dia 11 de novembro daquele ano (2022), defendeu como “manifestações pacíficas”.

Da nota, assinada pelos comandantes: Almirante de Esquadra Almir Garnier Santos, Comandante da Marinha; general de Exército Marco Antônio Freire Gomes, comandante do Exército e o tenente-brigadeiro Carlos de Almeida Batista Junior, comandante da Aeronáutica, consta o seguinte texto: “A Constituição Federal estabelece os deveres e os direitos a serem observados por todos os brasileiros e que devem ser assegurados pelas Instituições, especialmente no que tange à livre manifestação do pensamento; à liberdade de reunião, pacificamente; e à liberdade de locomoção no território nacional.

Nesse aspecto, ao regulamentar disposições do texto constitucional, por meio da Lei nº 14.197, de 1º de setembro de 2021, o Parlamento Brasileiro foi bastante claro ao estabelecer que: “Não constitui crime [...] a manifestação crítica aos poderes constitucionais nem a atividade jornalística ou a reivindicação de direitos e garantias constitucionais, por meio de passeatas, de reuniões, de greves, de aglomerações ou de qualquer outra forma de manifestação política com propósitos sociais”.

Uma defesa explícita do que ali se passava e que, nesta semana, o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, classificou em entrevistas de “um crime”. O mesmo tratamento dado pelo relatório que resultou das investigações sobre o 8 de janeiro, para os “boinas vermelhas”, “um grupo extremista composto por reservistas do Exército Brasileiro e que apresenta indicativos de mobilização para a violência”.

O grupo participou do movimento que montou acampamento em frente ao Quartel General do Exército, em Brasília. E, antes mesmo do 8 de janeiro, já estavam sendo monitorados. “A presença desse grupo extremista na capital federal eleva o risco de ocorrência de ações violentas na posse presidencial, a ser realizada em 1 º de janeiro de 2023”, alertaram os serviços de inteligência. Segundo esse trabalho, “o grupamento “não tem nome oficial ou estrutura centralizada, sendo composto por reservistas autônomos que compartilham posição político-ideológica semelhante, discurso radical de deslegitimação do Estado de Direito e propensão à ação violenta. Seus membros se identificam como militares da reserva das Brigadas de Infantaria Paraquedista do Exército Brasileiro (EB). Alguns deles estavam nas proximidades da sede da Polícia Federal, no Setor Comercial Norte de Brasília, na noite de 12 dez. 2022, quando houve tentativa de invasão do órgão policial”.

Deram conta, ainda, de que “os Boinas Vermelhas j á estiveram presentes em outras manifestações em Brasília. No feriado do Dia da Independência em 2021 e nos dias que se seguiram, o grupo incitou manifestantes à desordem e promoveu tentativas de ultrapassar barreiras de contenção montadas por forças policiais na Esplanada dos Ministérios. Em certos momentos, integrantes do grupo buscaram assumir a liderança das

manifestações, coordenando a segurança das pessoas e, por vezes, mediando a comunicação com representantes do governo federal, do governo do Distrito Federal e das forças de segurança”.

Na ocasião, o grupo contava com ao menos 30 homens, com idades entre 35 e 60 a nos, oriundos majoritariamente do Rio de Janeiro/RJ e de outras localidades do país. Durante as manifestações, eles pernoitaram em uma casa alugada nos arredores do Distrito Federal.

As manifestações realizadas em 7 de setembro de 2021 na capital federal também contaram com a participação de alguns membros do grupo autointitulado Audazes PQDT. Em evento anterior, em março de 2021, no Rio de Janeiro/RJ, seus integrantes apresentaram discurso contrário a partidos e ideologias de esquerda e se mostraram dispostos a pegar em armas para manter o Brasil "livre de um governo comunista". Na ocasião, eles utilizaram vestimentas militares e boinas grená. Em resposta a denúncias de presença de militares no protesto realizado no Rio de Janeiro, o Ministério Público Militar solicitou investigação sobre o Audazes PQDT em abril de 2021.

Em 7 de setembro de 2022, no Rio de Janeiro, quando as intenções golpistas estavam mais visíveis – a cúpula militar chegou a encomendar um estudo à FGV, para avaliar se o golpe era viável e se haveria adeptos: Exclusivo: Forças Armadas fazem levantamento sobre oficiais dispostos a aderir ao golpe prometido por Bolsonaro - Denise Assis - Brasil 247 - durante as celebrações d o Centenário da Independência. Nessa data, houve participação isolada dos paraquedistas reservistas do Exército Brasileiro. O serviço de inteligência que os observou, no evento, descreveu: “não havia uma presença organizada ou defesa de discurso extremista violento. Alguns dos integrantes do grupo concorreram a cargos eletivos em 2022, o que pode ter contribuído para a moderação de comportamento”.

Os investigadores constataram que um dos líderes Boinas Vermelhas, o militar da reserva Marcelo Soares Correa, estava presente na ocupação da Praça dos Cristais, em frente ao QGEx, em Brasília. Cabo Correa, como é conhecido, atuou como porta-voz do grupo. Ele organizou e integrou manifestações contrárias à mudança de governo no Brasil após as eleições de 2022. Em 16 de novembro de 2022, Correa participou da invasão do plenário da Câmara dos Deputados com um grupo de 50 manifestantes que pediam intervenção militar e já defendeu manifestações no Brasil à semelhança do modelo adotado na Ucrânia, em 2014 e no Egito em 2011, que resultaram em insurreições civis.

Em 22 dezembro de 2022, o Cabo Correa publicou vídeo em sua conta de Facebook, gravado em frente ao Palácio da Alvorada, em que alertava para o fato de ser aquela a última data em que estaria se manifestando " pelo amor" e que estava aguardando manifestação do Presidente da República (ainda Jair Bolsonaro).

No vídeo, uma declaração inflamada e de clara incitação à violência, alegava que, a partir de então, seria iniciada uma nova fase dos atos de protestos, pois o povo estava inflamado e não iria entregar o país ao "crime político organizado". Alertou, ainda que, se a salvação não viesse " pelo amor", seria "pela dor", e não iria "arregar para os comunistas". Ainda assim, monitorado, com a Polícia sabendo dos seus passos e intenções, continuou circulando à vontade, prosseguindo com suas atividades no acampamento. Essa inação quanto ao Cabo Correa, nos leva a concluir o nível de tolerância (ou talvez divisão) que havia na Polícia do Distrito Federal, quanto à perspectiva de golpe.

Outra liderança é Ricardo Arruda Labatut Rodrigues, conhecido como Coronel Labatut, que usou vestimenta militar durante todos os atos em que os reservistas participaram. “Labatut demonstrou, em várias ocasiões, ser figura de liderança no grupo. Essas lideranças têm envolvimento com integrantes de outros grupos extremistas. Em setembro de 2021, Correa manteve contato com membros do movimento radical Ucraniza Brasil, que participaram dos atos e estavam acampados em Brasília”. De acordo com os dados contidos no relatório, “o Ucraniza Brasil foi criado no início de 2021 com o objetivo formar resistência civil contra o Estado por meio da formação de unidades paramilitares”. É difícil acreditar ou até mesmo entender, como um movimento com este teor, a começar pelo nome, circulasse livremente e se organizasse sem ser incomodado pela PF ou quem quer que seja. Seria preciso que os estamentos das várias Polícias estivessem mesmo muito contaminados, para não agir, não coibir, não desbaratar uma agremiação dessa natureza.

Àquela altura – esse trecho do relatório é do dia 22 de dezembro de 2022 –, a avaliação dos investigadores era a de que “o movimento atualmente apresenta baixo nível de mobilização para participação em manifestações sociais, mas chegou a montar acampamentos em São Paulo e em Brasília. Os membros do movimento têm níveis de radicalização variados e alguns ainda representam ameaça. Alessandro Ferreira da Silva, cuja alcunha é Alex Silva, criador do Ucraniza Brasil, indicou que mantém contato com Correa e que, em 2020, enquanto esteve no Brasil (a investigação não revelava até então que ele estivesse fora do país – grifo meu), realizou missão com os ex-paraquedistas. Magno Duarte Ferraz (Duarte Lobbo), outra liderança do Ucraniza Brasil, que também mantém contato com Correa”.

A descrição sobre o grupo prossegue, dando detalhes sobre a forma como se mantinham em Brasília. “O grupo de paraquedistas presente na Praça dos Cristais não se engaja em todas as mobilizações da ocupação. Não demonstra ter muitos recursos para financiamento. Inicialmente, não estava acampado e usava imóveis emprestados em Brasília. Seus membros expressam discurso de ruptura constitucional e demonstram disposição para envolvimento em ações violentas. Além disso, cultivam imagem de prontidão (o sempre alerta, na linguagem militar), de que aguardam uma suposta ordem presidencial que os acionem. O grupo estaria estocando combustível na tenda que utilizar em frente ao QGEx”. (Também não fica claro para qual finalidade seria usada essa gasolina).

Chama a atenção que no conteúdo desse relatório – o do dia 22 de dezembro de 2022 -, estivesse contido o seguinte trecho: “A presença do grupo na capital federal eleva o risco de ocorrência de ação violenta com potencial de impactar a posse do presidente eleito. Avalia-se que o grupo tenha capacidade, motivação e meios para planejar, executar ou prestar suporte a um ato extremista violento. Ademais, pode atuar como indutor de atos de vandalismo e obter a adesão de participantes da ocupação que originalmente não demonstravam propensão à violência”. Ou seja, incitar a todos do acampamento, a aderirem aos seus propósitos golpistas.

Outro detalhe importante é que esse relatório da Abin, consolidando as informações colhidas ao longo da investigação desse grupo, foi disseminado (entregue, para ficar ainda mais claro), aos seguintes órgãos competentes: “DIFUSÃO: DIP/PF/MJSP - DINT/SEOPI/MJSP - SI/SSP/DF - GABINETE DE TRANSIÇÃO DO GOVERNO”.

Diante disso, resta perguntarmos: o que foi feito desse feixe de informações da maior importância para o governo que assumia? Qual foi o destino dado às questões levantadas nesse relatório consolidado pela Abin, que apontava para o risco iminente de ataques ao presidente eleito? Os responsáveis pela transição leram esse potencial de ameaça? Os responsáveis pela segurança do presidente que chegava, tomaram alguma providência para assegurar que os “boinas vermelhas” não prosseguissem com as suas ações no acampamento do QG do Exército? O Comando do Exército sabia o que se passava em seu quintal? Se sabia, foi complacente ou leniente com esses “reservistas” que saídos das suas fileiras usavam os treinamentos e ensinamentos recebidos para golpear a democracia? São muitas as perguntas, poucas as respostas e muito a elucidar e entender. A propósito, uma última pergunta: queremos, de fato, resolver? (Segue)

Confira abaixo os quadros com dados da Abin sobre “boinas vermelhas”:

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Relatório fruto das investigações comprovam: 8 de janeiro não foi um piquenique

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06.01.2024

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“Eram senhoras, crianças, rapazes, moças... Como se fosse um piquenique, um arrastão em direção à Praça dos Três poderes”. A descrição do cenário do ato de terror acontecido no dia 8 de janeiro de 2022, que depredou os prédios dos principais poderes da capital federal, feita pelo ainda ministro da Defesa, José Mucio, não combina com a apuração dos fatos consolidada num relatório da Abin, com base nas investigações das Polícias: Federal e Civil-DF.

Longe desse quadro quase pastoril saído da observação do ministro, o que salta do trabalho de investigação é a participação de ex-paraquedistas, apelidados de “boinas vermelhas”, armados e bem treinados. Esses homens foram os responsáveis pela montagem e organização dos acampamentos nas portas dos quartéis. Os mesmos que o ministro disse ter sido frequentado por “amigos e parentes” dele. E que os comandos das Forças Armadas em nota no dia 11 de novembro daquele ano (2022), defendeu como “manifestações pacíficas”.

Da nota, assinada pelos comandantes: Almirante de Esquadra Almir Garnier Santos, Comandante da Marinha; general de Exército Marco Antônio Freire Gomes, comandante do Exército e o tenente-brigadeiro Carlos de Almeida Batista Junior, comandante da Aeronáutica, consta o seguinte texto: “A Constituição Federal estabelece os deveres e os direitos a serem observados por todos os brasileiros e que devem ser assegurados pelas Instituições, especialmente no que tange à livre manifestação do pensamento; à liberdade de reunião, pacificamente; e à liberdade de locomoção no território nacional.

Nesse aspecto, ao regulamentar disposições do texto constitucional, por meio da Lei nº 14.197, de 1º de setembro de 2021, o Parlamento Brasileiro foi bastante claro ao estabelecer que: “Não constitui crime [...] a manifestação crítica aos poderes constitucionais nem a atividade jornalística ou a reivindicação de direitos e garantias constitucionais, por meio de passeatas, de reuniões, de greves, de aglomerações ou de qualquer outra forma de manifestação política com propósitos sociais”.

Uma defesa explícita do que ali se passava e que, nesta semana, o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, classificou em entrevistas de “um crime”. O mesmo tratamento dado pelo relatório que resultou das investigações sobre o 8 de janeiro, para os “boinas vermelhas”, “um grupo extremista composto por reservistas do Exército Brasileiro e que apresenta indicativos de mobilização para a violência”.

O grupo participou do movimento que montou acampamento em frente ao Quartel General do Exército, em Brasília. E, antes mesmo do 8 de janeiro, já estavam sendo monitorados. “A presença desse grupo extremista na capital federal eleva o risco de ocorrência de ações violentas na posse presidencial, a ser realizada em 1 º de janeiro de 2023”, alertaram os serviços de inteligência. Segundo esse trabalho, “o grupamento “não tem nome oficial ou estrutura centralizada, sendo composto........

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