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Escárnio. Vergonha. Vileza. Faltam substantivos e sobrariam adjetivos pouco airosos, não fosse esse um espaço sério e respeitoso.

Endurecidos pela avareza, acostumados que foram com os cifrões que se esparramaram no governo passado para dentro de suas carteiras, os militares não se comoveram diante das imagens que percorreram o mundo todo, de mães indígenas mal podendo sustentar nos corpos franzinos seus curumins dependurados nos seis magros. Único alimento possível para não deixar morrer as suas crias, elas davam as últimas gotas de si mesmas.

A salvação? Não vinha. Foi interrompida porque deixaram de entrar nos cofres do ministério da Defesa, R$ 993 mil por dia. Isto mesmo. Ou o governo do recém-empossado presidente Luiz Inácio Lula da Silva pagava essa “mesada” diária para a pasta do ministro José Múcio, ou o povo da aldeia morria à míngua, sob as lentes curiosas de uma mídia que chegou lá acompanhando a caravana liderada por Lula e seus ministros das áreas que poderiam impedir a matança.

A denúncia foi estampada na Folha de hoje (24/01), em matéria assinada pelo repórter João Gabriel, que escreveu: “Responsáveis pela logística da operação na Terra Indígena Yanomami, as Forças Armadas pediram R$ 993 mil por dia para manter o apoio às ações de desintrusão ao garimpo ilegal. Mesmo assim, os militares teriam capacidade de entregar menos da metade das cestas básicas necessárias”.

Por quê? Me digam, por quê? O que impedia esses senhores de realizar um trabalho pelo qual, como é dito, “são responsáveis”? E se assim não fosse, por piedade, espírito de solidariedade, amor ao próximo, amor à vida... Não lhes tocou as imagens das crianças cambaleantes pela fome, não os enterneceu a luta daquelas mães pela sobrevivência dos seus filhos. Um não redondo, condenatório, decisivo, foi o que emitiram. Ou paga ou não tem, determinaram, numa sentença absoluta, definitiva.

No texto, o jornalista prossegue, com a isenção e o distanciamento que o padrão Folha exige: “O valor foi calculado pelo Ministério da Defesa em nota técnica obtida pela Folha. A demanda foi enviada para a Casa Civil. Recentemente, o governo anunciou mais R$ 1,2 bilhão para a missão.”

Não! Não foi o ministério quem emitiu a nota técnica. Ministério é uma instituição. Não pensa, não julga, não avalia, não vê, não sente. Alguém mandou. E não venham me dizer que estavam “apenas cumprindo ordem”, no melhor estilo Karl Adolf Eichmann. Não banalizem o mal! Já chega o que estamos assistindo no Oriente Médio. De novo não!

“O documento, de setembro de 2023, diz que a verba para assistência humanitária e expulsão de garimpeiros teria acabado e que seria necessário um novo aporte financeiro. O pedido foi feito cerca de um mês após o governo liberar R$ 275 milhões em créditos extraordinários destinados a essa finalidade.”

Sabem o que isto significa? Fazer o governo recém-empossado de refém. Chantagear para obter vantagem. Tutelar, manter sob jugo. Até quando? Me digam, até quando? E por que prosseguimos como se nada estivesse acontecendo? Por que aceitamos, num governo que fala em cuidar e acolher?

"Com a extinção dos recursos orçamentários, a manutenção das operações nos níveis citados implica a necessidade de aporte de valores na dimensão mencionada", diz o documento.” É insuportável, é acintoso, ler essa linguagem técnica, quando as imagens dos corpos esquálidos, pele e osso (estou me repetindo, mas é preciso), me vêm à mente.

O que é, por diabos, essa burocracia fria, diante de um povo – sim, o nosso povo -, se apagando sob o céu de uma terra exuberante, que nos foi dada para preservar e proteger? Com que cara vamos dizer ao mundo que os nossos originários morreram como moscas, em série, por falta de comida?

Gastamos espaços justos e generosos, horrorizados com as mortes dantescas em Gaza, enquanto a nossa tragédia está ali, ao alcance de aviões da FAB, que como prostitutas só vão lá “se pagarem” ... Envergonhem-se, burocratas! E burocratas aqui é, sim, um xingamento. Foi nisto que vocês transformaram o termo, quando emitiram nota/chantagem, sem avaliar as perdas de vidas “desimportantes”, porque estão fora do alcance das vistas do resto do país. São seres exóticos, que não vestem grifes, não comem com talheres, não frequentam...

Esses burocratas arquivaram na “nuvem” digital o NÃO ao socorro, à preservação, como arquivaram a sensibilidade, a consciência, a cidadania...

Do que adianta frequentar fóruns internacionais, propalando preocupações com o fim da fome, quando ela está sendo ignorada nos cafundós de um Brasil que já não grita, que já não protesta, porque não tem forças. Um Brasil cambaleante, corrompido, desnaturado, que larga os seus à soldo de R$ 993 mil/dia?

É esse o preço das vidas dos nossos indígenas. É pegar ou largar. E é melhor que larguem, porque se largarem, sob os seus pés o ouro faísca, os diamantes iluminam as trilhas na selva, e os convida a ignorar invasores vorazes por minerais e corpos, canibais de sua gente.

“Questionado sobre o custo e a necessidade de verba pouco tempo após a liberação de crédito extraordinário, a Defesa disse que o montante já havia sido gasto, usado para distribuir 766 toneladas de alimentos, 36,6 mil cestas básicas, 3.029 atendimentos médicos, detenção de 165 suspeitos e horas voo suficientes para dar 40 voltas na terra”.

Não! Novamente eu digo: não foi a Defesa! Foi o ministro da Defesa! Ele tem nome, CPF, crachá, só não tem consciência. Esta, ele deixou trancada em um escaninho qualquer do seu gabinete, onde faz contas mesquinhas.

"De acordo com a referida nota técnica, o Ministério da Defesa apontou a necessidade de complemento de recursos financeiros para a manutenção das operações na TI Yanomami ao constatar a insuficiência orçamentária", afirmou a pasta.

"No momento, os Ministérios da Defesa e da Justiça estão com a operação em campo, seguindo as orientações do presidente [Lula], para o combate ao garimpo ilegal", disse por sua vez a Casa Civil. A reportagem também questionou o Ministério do Planejamento e a SRI (Secretaria de Relações Institucionais), mas não obteve resposta”.

Exigimos resposta a esse drama. Exigimos o mínimo de humanidade. Exigimos decência.

E, como num epílogo de uma ficção pesada, o texto alerta: “Por fim, Como mostrou a Folha, a omissão e até suspeita de boicote das Forças Armadas na atuação no território Yanomami é vista como um fator determinante para a explosão do garimpo ilegal na região durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). (...) Relatórios da Funai do governo Bolsonaro registraram que integrantes recebiam propina de garimpeiros e vazavam informações sobre operações de repressão ao crime.”

O governo mudou. Alguém precisa avisar ao ministro José Múcio que enquanto ele se banqueteia pelos quartéis, os ianomâmis morrem subnutridos, por terem as suas terras invadidas e as suas águas envenenadas. Falta a eles, o que sobra à mesa dos oficiais, que degustam camarões VG e uísque 12 anos. Os ianomâmis morrem por ausência completa de uma política de defesa, função da pasta do ministro José Múcio. Quem os defenderá?

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Ministro da Defesa cobra caro para salvar vidas ianomâmis

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25.01.2024

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A salvação? Não vinha. Foi interrompida porque deixaram de entrar nos cofres do ministério da Defesa, R$ 993 mil por dia. Isto mesmo. Ou o governo do recém-empossado presidente Luiz Inácio Lula da Silva pagava essa “mesada” diária para a pasta do ministro José Múcio, ou o povo da aldeia morria à míngua, sob as lentes curiosas de uma mídia que chegou lá acompanhando a caravana liderada por Lula e seus ministros das áreas que poderiam impedir a matança.

A denúncia foi estampada na Folha de hoje (24/01), em matéria assinada pelo repórter João Gabriel, que escreveu: “Responsáveis pela logística da operação na Terra Indígena Yanomami, as Forças Armadas pediram R$ 993 mil por dia para manter o apoio às ações de desintrusão ao garimpo ilegal. Mesmo assim, os militares teriam capacidade de entregar menos da metade das cestas básicas necessárias”.

Por quê? Me digam, por quê? O que impedia esses senhores de realizar um trabalho pelo qual, como é dito, “são responsáveis”? E se assim não fosse, por piedade, espírito de solidariedade, amor ao próximo, amor à vida... Não lhes tocou as imagens das crianças cambaleantes pela fome, não os enterneceu a luta daquelas mães pela sobrevivência dos seus filhos. Um não redondo,........

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