Elas/eles são muitos e sabem voar
Todos os dias os jornais cearenses estampam manchetes sobre meninas e meninos das escolas públicas, que estão passando nos vestibulares do país em quantidades cada vez maiores. Um único aluno de uma escola pública do município de Maranguape-CE, por exemplo, foi aprovado em oito universidades. Algumas pessoas podem até se surpreender, quando descobrem que as escolas públicas estão aprovando cada vez mais estudantes para as universidades públicas e, muitos deles, aprovados para cursos que por muito tempo só eram frequentados pelos filhos brancos e ricos da nossa sociedade. Tamanha “ousadia” faz com que nossa sociedade escravocrata fique incomodada porque esses meninos e meninas, como diz aquela canção do Hugo Ojuara, são pretos demais, bonitos demais e, como estudam demais, estão passando os outros pra trás.
Para as famílias desses jovens e para todos aqueles que fazem a escola pública acontecer não há nenhuma surpresa, pois a determinação e o compromisso dessas meninas e meninos e de seus professores sempre existiu, sempre esteve ali, mas as políticas públicas não queriam enxergá-los, afinal quem vai ocupar os subempregos se os pobres, pretos e periféricos estão entrando na universidade para se tornarem doutores, né?
A falta de vontade política e o sucessivo descaso dos governos municipal, estadual e federal para com as camadas mais carentes da sociedade, contribuíram consideravelmente para o aumento de dados estatísticos que não orgulham ninguém, pois são responsáveis pelo atraso que enfrentamos nas mais variadas áreas ainda hoje. As “coisas” estão acontecendo, mas ainda há gestor, inclusive do campo progressista, que acredita piamente que é mais importante investir em polícia do que em educação e cultura.
A temática que estou esboçando aqui requer uma discussão que não cabe em uma lauda neste generoso espaço do Brasil 247, uma vez que não existe sozinha, mas em conexão com inúmeros outros fatores constituintes da nossa sociedade. Contudo, pode-se afirmar que o garoto/a garota cujos pais possuem um emprego decente e que pode passar o dia em uma boa escola de tempo integral, dificilmente será cooptado/cooptada pelo crime organizado, por exemplo.
Escola de tempo integral não é aquela que teve apenas a expressão “de tempo integral” acrescida ao seu antigo nome na nova pintura do muro, mas sim aquela que, a partir da determinação do governo, proporciona que seus professores cursem um mestrado e um doutorado (mestrado profissional, como o ProfLetras, é um exemplo). No entanto, outro nó precisa ser desatado: como um professor vai cursar seu mestrado e desenvolver sua pesquisa se o prefeito ou o governador não o libera da sala de aula?
Como se costuma dizer na Internet, “há muitas camadas” no que está sendo dito aqui, mas não é por isso que vamos deixar de celebrar a entrada dessa garotada nas universidades públicas do país, ao contrário. Que eles/elas continuem entrando, ocupando e transformando um espaço que é mantido com o dinheiro que vem dos seus avós e de seus país, gerações as quais, muito provavelmente, tiveram negado o acesso à universidade na qual seus netos e filhos estão entrando hoje.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
