As veias ainda abertas: Venezuela, intervenção externa e a persistência do imperialismo na América Latina |
A história da América Latina é atravessada por uma constante que Eduardo Galeano descreveu com precisão quase cirúrgica em As Veias Abertas da América Latina (1971): a região não foi apenas explorada, mas organizada para ser explorada. Desde a invasão europeia até as formas contemporâneas de ingerência política, econômica e militar, o continente foi tratado como espaço de extração de riqueza e de disciplinamento político, raramente como sujeito pleno de sua própria história. É sob esse arco histórico longo — e não como um episódio isolado — que devem ser compreendidos os ataques dos Estados Unidos à Venezuela, culminando no sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, em 3 de janeiro de 2026.Essa lógica não é nova. Do século XVI ao XVIII, a prata de Potosí, o ouro brasileiro e as plantations caribenhas sustentaram o florescimento europeu enquanto deixavam sociedades devastadas e economias dependentes. No século XIX, após as independências formais, a tutela externa reapareceu por meio de dívidas, tratados desiguais e intervenções armadas. No século XX, a Doutrina Monroe consolidou a ideia de que a América Latina seria zona de influência exclusiva dos Estados Unidos, legitimando golpes de Estado e ocupações militares contra governos considerados inconvenientes. Guatemala em 1954, Brasil em 1964, República Dominicana em 1965, Chile e Uruguai em 1973, Panamá em 1989: a lista é extensa e dolorosamente conhecida.
A Venezuela insere-se plenamente nesse padrão. Detentora de uma das maiores reservas de petróleo do planeta e de vastos recursos naturais, sempre ocupou posição estratégica no tabuleiro geopolítico — condição agravada no século XXI por sua aproximação com China e Rússia. Nos últimos anos, Caracas aprofundou acordos de cooperação energética, militar, financeira e tecnológica com Pequim e Moscou, buscando contornar sanções, reduzir a dependência do sistema........