Misantropia digital: a dose do tempo real e a lucidez do ritmo próprio
O que é, para mim, misantropia digital? Não acho que seja sobre detestar pessoas nem sobre virar um eremita social. Para mim, é sobre evitar a socialização, ou melhor, a sociabilidade algorítmica: a interação empurrada por notificações, conversas “ouvidas” pelo seu celular, rankings invisíveis, buscas espionadas no Google, recompensas intermitentes, pressão de performance e exposição.
Há misantropos radicais, os que não se utilizam de qualquer ferramenta sócio-digital, e há também os moderados, aqueles que usam com parcimônia qualquer meio de comunicação digital.
O misantropo digital faz uma curadoria de contato, de tempo. Ele faz escolhas como a desconexão, a soberania de sua atenção, um tanto de foco e silêncio e uma autoexclusão proposital. Ele determina seu tempo, seu ritmo e sua atenção. Ele se exila do universo online em prol de sua atenção. Ele aplica os princípios da economia da atenção em sua vida de maneira fiel e literal: eu cuido de mim, da minha saúde, da minha agência e de onde eu aponto a minha atenção.
Sim, saúde.
Ele se exclui do frenesi digital em uma rotina de higiene mental — protege-se de TAG, burnout, sentimentos de frustração, ressentimento e angústia. Porque, verdade seja dita, o deslizar constante de dedos pode e provavelmente gera tudo isso, ou grande parte disso, nos usuários contumazes.
Sendo assim, os misantropos digitais têm sua saúde muito mais cuidada e preservada. Certo?
Depende.
Segundo o Relatório 2024 da Lancet Standing Commission sobre demência, o isolamento social aparece entre os fatores de risco modificáveis ao longo da vida, ou seja, algo que pode aumentar o risco quando se agrava e, por outro lado, pode ser um campo de prevenção quando é reduzido. É aqui que a socialização digital pode ter um papel mentalmente protetivo, sobretudo em fases da vida em que o encontro presencial fica mais raro: chamadas de vídeo, grupos de mensagem, trocas frequentes em plataformas de mensagem instantânea (leia-se WhatsApp e afins) e participação em comunidades online podem funcionar como “pontes” contra o isolamento, mantendo a mente em atividade por exigir linguagem, memória, atenção, humor e reciprocidade. É importante destacar que o relatório fala do risco do isolamento (não recomenda explicitamente as redes sociais), mas a implicação prática é clara: conexão (inclusive mediada por tecnologia) pode ser uma forma de reduzir o isolamento, e reduzir o isolamento é parte do pacote de proteção cognitiva.
O misantropo digital é presente em sua presença física e propositalmente ausente onde não há corpo material.
Lembrando que, para usarmos o neologismo misantropia digital, precisamos nos lembrar da definição de misantropia, que está longe de ser simples ou única.
No Fédon, Sócrates descreve a misantropia como o efeito colateral de uma confiança ingênua golpeada por sucessivas traições. É o resultado de apostar alto em pessoas sem critério, frustrar-se, repetir o erro e, por fim, concluir amargamente que “ninguém presta”. Essa generalização ignora as nuances da natureza humana e revela um despreparo do próprio observador: ao não compreender que a mediocridade e a excelência não são dominantes e que a maioria de nós habita o meio-termo, o........
