Não é a Malu Gaspar

Como sói acontecer nesses tempos que remetem a “1984”, assim que surgiram as informações de que pesam sobre quatro funcionários da Receita Federal e do Serpro graves indícios de que acessaram dados fiscais de ministros do STF e de seus parentes, muitos dedos foram apontados para a jornalista Malu Gaspar.

Afinal, foi ela quem noticiou, pela primeira vez, que os irmãos de Dias Toffoli tinham vendido cotas de um resort para um fundo ligado ao Banco Master e que a advogada Viviane Barci, mulher de Alexandre de Moraes, foi contratada para defender o mesmo banco por uma montanha de reais.

E logo começaram a apedrejá-la.

O problema, no entanto, é que os dados fiscais acessados dizem respeito somente a declarações de Imposto de Renda e movimentações bancárias. Os contratos entre particulares não passam pelo crivo da Receita Federal nem do Serpro.

Claro que as informações publicadas pela jornalista resultaram de vazamentos, mas não desses funcionários, nem dessas instituições. O mais lógico é que tenham sido vazadas dos documentos que a Polícia Federal apreendeu ao investigar Daniel Vorcaro. Esses vazamentos, no entanto, não foram alvo das investigações solicitadas pela PGR e por Moraes.

Em nenhum dos casos a jornalista poderia ser investigada e muito menos punida, a não ser que fosse provado que ela pagou pelas informações — tal como Glenn Greenwald não foi punido por publicar os vazamentos das conversas entre Sérgio Moro e companhia.

Jogar pedras nos vilões, verdadeiros ou falsos — da esquerda ou da direita — tem sido o esporte favorito dos brasileiros desde o advento das chamadas “redes sociais”.

A gente era feliz e não sabia quando o nosso esporte favorito era o futebol.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.


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