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“Madame Manicure”

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14.03.2026

EU: Sejam bem-vindos a mais um programa Cessar-Fogo. Eu nem vou perder muito tempo na apresentação, porque o meu convidado de hoje tem tantos assuntos que é melhor começar a conversar com ele logo. Ele é um grande psicólogo, político, poeta, um intelectual, um intelectual daqueles da antiga, um erudito, dá para falar com ele sobre política, sobre maconha, sobre sonhos. Ele é Jacob Pinheiro Goldberg. Olá, Jacob, como está você? Tudo bem aí? 

JACOB: Muito bem, muito prazer em falar com você mais uma vez. Nós que já tivemos longas conversas a respeito, de como salvar o mundo e a gente mesmo. 

EU: Jacob, eu sei que uma conversa com você dá para uns quatro ou cinco programas, devia ter uma série da Netflix com você, mas vamos tentar falar, primeiro vamos falar do livro escrito pelo bisneto do Marechal Lott, o Felipe Lott, um livro maravilhoso, falando sobre o teu projeto nacionalista.

JACOB: Eu não sei se você, Alex... acredita em milagres, mas eu só acredito em milagres. Tem um filósofo cristão que eu gosto muito, Teilhard de Chardin, ele disse o seguinte, que na dimensão do cosmo, só o milagre é compreensível. Você imagine só, e quem está nos assistindo, na década de 60, a marcante década de 60 da história do Brasil, eu, jovem, nascido em Juiz de Fora, servindo lá ao NPOR do 12o. Regimento de Infantaria, sob o comando de um oficial… eu estou tomando cuidado com as palavras, porque esses assuntos delicados demandam um certo zelo, porque eles tratam do destino pessoal, mas também do destino coletivo do Brasil. Eu fui servir como cidadão brasileiro obrigatoriamente na ocasião, o exército. E logo nos primeiros dias, Alex, eu percebi que o comandante tinha uma atitude de perseguição comigo. E eu pensei, mas o que será, né? O que será? Paranóia minha ou é uma realidade? Conversando com alguns amigos, os meus amigos me alertaram. “Veja bem, esse cidadão é um sujeito fanático. E como você participou da União da Juventude Comunista, na fantasia louca dele, você continua sendo”. Eu não era, Alex. Eu fui comunista por um dia. Eu fui comunista, vamos dizer, com a menor frequência na história do comunismo, porque eu entrei na União da Juventude Comunista no dia em que a União Soviética invadiu os países socialistas. Eu fui ingenuamente na reunião e eu era um recém-vindo e disse, “pessoal, nós temos que protestar… como é que é isso? Como é que a União Soviética invade um país socialista? Temos que protestar”. O Peralva de Miranda Delgado, que era o nosso chefe, querido meu amigo, saudoso amigo meu, depois reitor da universidade lá no Rio de Janeiro, virou e disse, “pessoal, eu proponho a expulsão do Jacob”. Eu falei, “meu Deus, eu acabei de entrar, vou ser expulso?” E fui. Fui expulso porque propus esse protesto. Mas, enfim, acontece que o tenente não sabia disso. Ele tinha informações ruins sobre mim. E esse sujeito resolveu, durante um ano inteiro, me perseguir. Eu só encontrei uma alternativa. A família da minha mãe morava em São Paulo, eu pedi transferência e vim para São Paulo. Em São Paulo, eu fui para o CPOR em primeiro lugar e fui acolhido pelo maior advogado dos direitos humanos que o Brasil teve. Mário Simas, advogado de D. Paulo Evaristo Arns, da Terezinha Zerbini. E ele disse, “realmente, você não é paranoico, aquele sujeito é que é maluco”. E, posteriormente, a Comissão da Verdade desvendou que ele foi um grande torturador e um dos responsáveis pelo horror que foi a ditadura. Eu não vou declinar o nome, porque a vida me deu uma lição. Eu vou fazer uma citação em grego. Eu acho que todos os seus ouvintes conhecem a língua grega, então eu vou falar em grego mesmo. Posso falar em grego? 

EU: Oh, claro, tranquilamente. Você pode tudo. 

JACOB: Não se chuta cachorro morto. 

JACOB: Eu aprendi isso, a vida me ensinou. Então, não vou declinar o nome dele, mesmo porque, por fatalidade, ele, fisicamente, inclusive, está morto mesmo. Mas o fato é que eu vim para São Paulo, saí de Juiz de Fora, na década de 60, depois de dirigir, em Juiz de Fora, uma greve estudantil que marcou a cidade, na União Nacional de Estudantes Secundários, que era o grupo de esquerda contra a União Brasileira de Estudantes Secundários. Aí vim para São Paulo e depois fui servir no 40. Regimento de Infantaria, sob o comando do saudoso, na época coronel, posteriormente general, Euryale de Jesus Zerbini, uma das maiores figuras do nacionalismo brasileiro, em sendo, na ocasião, o Marechal Lott, o ministro da Guerra. Veja a sorte que eu tive. Quer dizer, eu saio daquele inferno de perseguição e venho para um local de acolhimento, que foi aqui o meu quartel em Quitaúna. Agora vamos dar um salto histórico. Passam-se décadas e décadas e décadas. E um dia, um jovem me telefona e diz, um amigo nosso, Wagner William, o grande historiador brasileiro Wagner William, que escreveu a biografia da Maria Teresa Goulart, que eu tive a satisfação de fazer o prefácio, deu o meu telefone para o bisneto, veja bem se isso não é milagre, do Marechal Lott, e esse moço resolveu escrever a biografia desse caipira judeu com quem você está falando e passou a achar que naquela ocasião esse projeto teve uma importância enorme pelo aspecto ideológico, político, social, de tentar transpor os quartéis para a rua e aproximar as Forças Armadas e a sociedade em cima do destino comum da nação brasileira. Em resumo, é isso. E eu quero que você saiba que quem ajudou a recolher documentação, o acervo de tudo isso, que vai sair agora em livro, foi a doutora Thais Infante, que é uma entusiasta do movimento nacionalista e que hoje, inclusive com um grupo de civis, cidadãos e coisa e tal, quer resgatar esse ideal, ainda mais nesse momento em que a noção de pátria, de nação, independente de esquerda, direita, começa outra vez a ter um papel no cenário internacional. 

EU: Como é que você participou do movimento nacionalista? Foi lá em Juiz de Fora, foi em São Paulo? Como é que foi isso? 

JACOB: Começa lá em Juiz de Fora, com o Centro de Estudo e Defesa do Petróleo e da Economia Nacional, na campanha “O petróleo é nosso”. Começa ali e vai se espraiando e depois, quando venho para São Paulo, onde eu me aproximo naturalmente das lideranças do movimento militar nacionalista da........

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