O fenómeno Lula é um fenómeno muito complexo e interessante de análise

Se o limitarmos aos últimos 40 anos, vemos como a resistência/resiliência do seu perfil político conseguiu emergir dentro do eleitorado de esquerda e afirmar-se como a grande voz pêtista que, no momento-chave do novo milénio, ganhou o Planalto.

Tenho muitos amigos e colegas no Brasil que adoram Lula. Tenho tantos outros que o detestam. Lula, independentemente desta eleição, ganhou a imagem de um segundo “Pai dos Pobres”, dada a revolução dos apoios sociais que conseguiu para milhões de brasileiros, como o Pacote da Bolsa Família. Financiou muitas universidades federais e estimulou muitas das estaduais. Esteve inclusive no estímulo criador de muitas outras. Muitos dos meus leitores lembram-se do fluxo de investigadores brasileiros para a Europa (incluindo Portugal) nos governos Lula. Terminou Lula e o fluxo caiu expressivamente. Eram investigadores sobretudo das Ciências Sociais, mas também das outras áreas académicas.

Mais qualitativos do que quantitativos. Mais interventivos do que reflexivos. Apaixonados pela Extensão Comunitária, algo que parece medieval quando olhamos agora para a Extensão das Universidades Portuguesas, tão distantes dos tempos da década de 1970 onde a Extensão Comunitária era também por aqui apaixonante.

Mas, hoje, gostaria de refletir convosco noutra faceta do fenómeno Lula. Lula foi acusado, mas 99% dos políticos brasileiros são indiciados, acusados, julgados. Ainda hoje o eleitorado brasileiro divide os políticos entre os que roubam e fazem e entre os que roubam e não fazem. Lula foi julgado, foi detido, foi preso.

Para muitos cidadãos, as estruturas da sociedade estiolam quando o preso é libertado. A sociedade vira as costas e esquece-se da efetividade dos direitos do libertado. Ser libertado é muito diferente de ser livre. E sobretudo diferente de ser acolhido. Portanto, em muitos casos, a pena ficou cumprida no arquivo da penitenciária, mas não ficou saldada junto da comunidade. Mas algo diferente se vem passando junto das comunidades eleitoras.

Abundam os casos de presos que ocuparam cargos políticos que ganham eleições novamente depois de libertados. A comunidade eleitora parece assim mais magnânima que a vizinhança; os eleitores parecem mais acolhedores num pecado fiscal, num dolo de corrupção ou num crime de prevaricação do que para o traficante libertado, para o que matou ou para aquele que violou.

Daí não me espantar que acusações de corrupção, prevaricação, abuso de poder ou fraude fiscal acabem por não beliscar em nada a reputação política do político apontado durante os respetivos mandatos. Como os brasileiros nos ensinam, logo que o político mostre obra cá pode sempre roubar lá que no fundo parece sempre que é dos nossos. Como alguém dizia, para os nossos tudo, para os outros a Lei.

QOSHE - A vingança de Lula - Paulo Reis Mourão
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A vingança de Lula

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07.10.2022

O fenómeno Lula é um fenómeno muito complexo e interessante de análise

Se o limitarmos aos últimos 40 anos, vemos como a resistência/resiliência do seu perfil político conseguiu emergir dentro do eleitorado de esquerda e afirmar-se como a grande voz pêtista que, no momento-chave do novo milénio, ganhou o Planalto.

Tenho muitos amigos e colegas no Brasil que adoram Lula. Tenho tantos outros que o detestam. Lula, independentemente desta eleição, ganhou a imagem de um segundo “Pai dos Pobres”, dada a revolução dos apoios sociais que conseguiu para milhões de brasileiros, como o Pacote da Bolsa Família. Financiou muitas universidades federais e estimulou muitas das estaduais. Esteve inclusive no........

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