Tradições que valem mais do que qualquer troféu
O futebol vive obcecado por uma única pergunta: quem ganhou? Os troféus respondem a essa pergunta. Os gestos respondem a outra, muito mais interessante: quem é, afinal, a pessoa que os conquistou?
É por isso que, muitas vezes, o momento mais bonito de uma conquista não acontece quando a taça é erguida, mas nos minutos que se seguem, quando já não há nada para provar e cada campeão escolhe, instintivamente, para onde vai. Há quem procure os colegas. Há quem procure as câmaras. Pedri, campeão do mundo pela Espanha no passado domingo, procurou o pai. Por instantes, deixou de ser um campeão para voltar a ser o miúdo que passava tardes a rematar penáltis no quintal, com o pai na baliza. Não era uma fotografia para as redes sociais. Era uma viagem ao lugar onde tudo começou. Uma tradição repetida a cada conquista, que representa a recriação de um momento da infância. É impossível não pensar numa ideia simples: talvez o verdadeiro troféu nunca tenha sido a medalha de campeão do mundo…
Praticamente ao mesmo tempo, outra imagem percorreu o mundo. Nico Williams recebeu a medalha de campeão e fez algo inesperado: saiu da festa, caminhou até às bancadas e colocou a medalha ao pescoço da mãe. Foi um gesto simples. Mas carregava quase quatro mil quilómetros de história. Décadas antes, os pais de Nico abandonaram o Gana em busca de uma vida melhor. Atravessaram o Saara, enfrentaram a fome, a sede, traficantes de pessoas, viram companheiros morrer pelo caminho e, já no norte de África, escalaram a vedação de Melilla para entrar em território espanhol. Não procuravam........
