Paulo Fonseca é especial

Num futebol cada vez mais dominado por discursos ensaiados, frases neutras e respostas pensadas para não ferir suscetibilidades, Paulo Fonseca é exceção e, por isso, tiro-lhe o chapéu. Ao leme do Lyon desde janeiro de 2025, em meados de fevereiro terminou série de 13 vitórias consecutivas em todas as competições, sinal de que o trabalho realizado no clube francês está a dar frutos. E encerro neste parágrafo o jogo jogado nas quatro linhas sem deixar de destacar o trajeto do técnico português nos escalões principais — Paços de Ferreira, FC Porto, regresso a Paços a provar que para dar dois passos à frente, por vezes, é preciso dar um atrás, SC Braga, Shakhtar, Roma, Lille, Milan e Lyon — e os nove troféus conquistados. Um percurso feito de contextos diferentes e culturas distintas.

Casado com uma cidadã ucraniana, viveu na linha da frente o início da invasão russa da Ucrânia, em fevereiro de 2022. À data no Shakhtar, foi forçado a sair do país à pressa em clima de tensão e incerteza, história de vida que lhe deixou marcas. Sempre que surge a oportunidade de tomar a palavra, Paulo Fonseca aproveita para denunciar a agressão do vil Putin e recordar ao mundo que, enquanto o futebol continua, há uma guerra real a destruir vidas e cidades. E quem viu de perto o impacto humano de um conflito que a maioria observa apenas à distância…

Há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não — o silêncio não é opção. Recentemente, voltou a demonstrar essa independência de pensamento ao criticar a decisão da FIFA de atribuir um prémio da paz a Donald Trump. Seja qual for a opinião sobre a conduta do presidente dos Estados Unidos da América, importa sublinhar a liberdade com que expressa e partilha o desacordo em relação à decisão de Gianni Infantino e seus pares.

As grandes estrelas raramente erguem a voz para dizer que o rei vai nu, prudência excessiva que empobrece o debate e as confina a uns pontapés num retângulo verde.

Paulo Fonseca escolheu outro caminho. Com serenidade e clareza, sem transformar cada conferência de imprensa ou aparição pública num manifesto, mostra que é possível defender causas que nascem na consciência. O cidadão, esse, deve vir sempre à frente do jogador ou treinador. Digo eu.


© A Bola