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O grande Paulo Futre

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Paulo Jorge dos Santos Futre comemorou o 60.º aniversário no sábado, 28 de fevereiro. Um número redondo que convida a puxar pela memória para recordar o trajeto de um dos melhores jogadores portugueses de sempre, capaz de se sentar à mesa dos maiores da geração dele à escala planetária.

Velocidade estonteante, drible em progressão, cabelos ao vento, um estilo quase insolente enquanto deixava adversários perdidos e de rins em mau estado, alguns dispostos a fazer-lhe pagar as diabruras com entradas a matar que na atualidade seriam crime com castigo. Quantas temporadas teria jogado mais se tivesse beneficiado da proteção dada hoje pelos árbitros aos grandes talentos?

Da estreia oficial pelo Sporting, a 27 de agosto de 1983, pela mão de Jozef Venglos, até pendurar as chuteiras com a camisola dos japoneses do Yokohama Flugels, a 26 de setembro de 1998, escreveram-se páginas que resistem à erosão do tempo. Assim de repente, porque o esquerdino do Montijo é um daqueles génios inesquecíveis, lembro-me de uma série de episódios marcantes sem recorrer ao amigo Google…

Após a saída do clube leonino, aos 17 anos, já internacional na principal Seleção Nacional, rumou ao FC Porto, sagrando-se bicampeão nacional e vencedor da Taça dos Clubes Campeões Europeus. Nesse duelo do Prater com o Bayern por pouco não marcou um golo sublime, jogada de craque e finalização de jogador dos distritais, conforme reconheceria. A Bola de Ouro que lhe devia pertencer, em 1987, acabou nas mãos de Rudd Gullit, a mostrar que o segundo lugar é mesmo o primeiro dos últimos.

À boleia de um Porsche amarelo ajudou Jesús Gil y Gil a sentar-se na cadeira de sonho do Atlético de Madrid, relação de amor e ódio que assinalou uma era no futebol espanhol. Ainda hoje vibro com a conquista da Taça do Rei pelos colchoneros em pleno Santiago Bernabéu diante do Real Madrid, em 1992, numa das mais memoráveis exibições do nosso Paulinho, autor do segundo golo no 2-1 final — e aquele túnel a Chendo na linha de fundo…?

Com a RTP a dar uma mãozinha, regressou a Portugal para representar o Benfica, pretendido também pelo Sporting presidido por Sousa Cintra. No imaginário de quem viveu os anos 90, impossível não evocar com um sorriso aquela aparição no relvado da Luz, antes de um Benfica-FC Porto para a Taça de Portugal, à medida que gritava, ao lado do presidente encarnado, Jorge de Brito, «é ganhar c…, é ganhar c…».

Que bela viagem na cruel máquina do tempo que teima sempre em transportar-nos de volta para o presente.

Paulo Futre consegue permanecer relevante bastante depois do derradeiro aplauso dentro de campo. Reinventou-se com inteligência, sentido de humor e, sobretudo, autenticidade, apesar de nunca terem chegado os prometidos charters de chineses. Se a comunicação no mundo do futebol é demasiadas vezes calculista e previsível, ele preservou a espontaneidade. Ri-se dele próprio, aceita os excessos do passado e encara o desporto-rei com paixão contagiante. É uma figura transversal, admirada por adeptos de diferentes clubes, algo raro num país no qual as rivalidades se sobrepõem ao reconhecimento do mérito individual.

Aos 60 anos, Paulo Futre continua a provar que os verdadeiros artistas jamais saem de cena — apenas mudam de palco.


© A Bola