Sporting e Rui Borges: a anatomia de um fracasso |
Pela experiência de quem vem de dois títulos consecutivos, ninguém imaginaria que o Sporting sofresse tamanha erosão nestes momentos finais.
Rui Borges ou os jogadores, ou mesmo todos juntos, equilibraram praticamente a decisão de toda a temporada em dois momentos, próximos entre si, depois de não terem conseguido ultrapassar a derrota no primeiro clássico com o FC Porto.
Nessa primeira fase, não só não tinham conseguido devolver o golpe que lhes tinha sido infligido por uma equipa a consolidar processos criados, como, num contexto de Liga pouco ameaçadora para os grandes como é a portuguesa, a vantagem pontual continuava confortável.
Não se furou a matemática nem a percepção. O favorito mudara de lado. Apesar dos fantasmas de Farioli pela passagem por Amesterdão, era a sua squadra, construída praticamente do zero — rapidamente, mas de forma estruturada, com várias fases e objetivos —, que parecia a mais forte. Mesmo diante de um bicampeão, que apenas tinha perdido a referência no ataque.
Com os portistas em velocidade de cruzeiro, os leões mantiveram passo firme e distâncias, à espera do erro alheio, porém a exigência iria obrigá-los a esforço considerável. O Sporting acreditou que podia mesmo chegar às meias-finais da Liga dos Campeões e não guardou uma gota de suor no corpo. O embate com o Arsenal, em Londres, iria, dessa forma, quebrar-lhes as pernas. No entanto, seria o dérbi com o Benfica, decidido no último fôlego depois de uma oportunidade desperdiçada, a destruir-lhes a alma.
Os verde e brancos passaram de ainda candidatos a terceiros classificados, com desvantagem no confronto direto, e a presença na Liga dos Campeões em risco.
Quebraram de vez depois do golo de Rafa. Desistiram, os braços caíram desamparados, a energia foi-se, sem alma que a amarrasse a músculos, ossos e tendões. Ainda entram em campo, ainda caminham, correm, rematam, todavia já nada parece fazer sentido. Só lhes resta esperar que os corpos vazios voltem a encher-se de vida.
Para trás, fica o planeamento, o mercado, conseguido e não conseguido, a gestão e as lesões, explicação mais recorrente para o que se tem passado. E aí haverá sempre vários temas. Luis Suárez, o único reforço com real impacto — e era aquele cuja herança mais pesada seria para carregar às costas, uma vez que substituía Gyokeres e até vinha de um segundo escalão —, ficou rapidamente sem suplente e, mais tarde, foi necessário recorrer ao jovem Nel. Entretanto, os problemas de Ioannidis, esperado desde a era Amorim, remontam a novembro e é um pouco inexplicável que o clube não se tenha precavido. O risco era grande até pelas circunstâncias da lesão, um problema no joelho.
A Vagiannidis irão colar rótulos e um deles será, certamente, o de erro de casting. A contratação estaria planeada há algum tempo, ao contrário de Faye e Luís Guilherme — um sem garantir rendimento nos treinos que o leve a ser opção para os jogos; e o outro sem exibições consistentes, ainda que possa alegar alguns problemas físicos como álibi —, soluções de recurso, depois de se terem falhado os alvos principais. Yeremay, por exemplo, é um extremo capaz de criar desequilíbrios pela ala e pelo corredor central e, como tal, um namoro antigo e, na falta de capacidade de o resgatar ao Corunha, ainda se tentou Kevin, que o Shakhtar venderia ao Fulham de Marco Silva por 40 milhões de euros.
A comparação com Alisson é que sai pela culatra. Emprestado por 3,5 milhões, começou rapidamente a convencer Antonio Conte e leva três golos em 10 encontros. Se no Sporting a irregularidade era evidente e nada fazia prever adaptação tão rápida ao calcio, a verdade é que não faltará adepto que não abane a cabeça, ainda mais porque a cláusula será exercida e o Sporting ficará sem o extremo de 23 anos em definitivo a troco de mais uns milhões. Em Alvalade, acreditou-se que Luís Guilherme, com ritmo de Premier League, ainda que não titular no West Ham, três anos mais novo, seria melhor negócio. Para já, não se confirma. Em 10 jogos na Liga, não conta com nenhuma ação determinante para golo.
Não tendo um impacto imediato, com Faye a não contar e Quenda com lesão prolongada, o Sporting não ficou a ganhar, bem pelo contrário. Para piorar, também Pedro Gonçalves esteve intermitente, por questões físicas, e Nuno Santos passou meses a fio no estaleiro. Trincão, Catamo, Luis Suárez, só para falar do ataque, jogaram quase sempre. E, como tal, quebraram. Primeiro, fisicamente. Depois, na vertente emocional.
No meio disto tudo, está Rui Borges. Terá dado aval aos reforços, mas não sabemos até que ponto participou ativamente nas contratações. O que sabemos é que sempre os defendeu. Aos reforços e aos outros. E bem.
Também sabemos que conseguiu transformar com eficiência o modelo existente no seu. Soube esperar quando percebeu que as coisas não estavam no caminho certo ainda no primeiro ano, apostou sem dúvidas no segundo. Eficiência em termos de processo, os resultados depois acabam por não demonstrá-lo. E como precisa destes!
O Sporting bicampeão fracassa, logo o treinador campeão Rui Borges também não pode ter sido bem-sucedido. Apostar na sua continuidade é acreditar que aquela competitividade será a norma na próxima época. Mas lesões haverá sempre. É preciso é saber responder nesses momentos. E o próximo mercado, antes disso tudo, promete aumentar a dificuldade, com a saída de jogadores-chave. Hjulmand antes de todos.
Não tenho nada contra a comunicação do técnico, apenas acho que não pode ser monocórdica. Tem-no sido. Com aquele ãhhhhhhhhh que se arrasta e que parece acrescentar indecisão à liderança. E, nesta fase, a mensagem tem de ser o guia. O farol.
Já Frederico Varandas, com tudo para fazer diferente, antes ou depois, num momento mais estável, gere mal o momento da renovação.
Rui Borges começará frágil a próxima temporada, tenha um ou dez meses de vínculo. A Taça e um Torreense a querer fazer história determinarão quão frágil isso será.