Seleção: de jeans e ténis no Azteca
Sem Ronaldo, Rúben, Bernardo e Leão, não foi um Portugal trajado de gala aquele pisou o palco do Golo do Século do barrilete cósmico e o magistral punchline de Carlos Alberto, com vernáculo e gestos a apontar para os céus, a pontuar a melhor sentença coletiva da história. Enquanto esses gritos ecoavam, e assim o será para sempre, no betão retocado do Azteca, via-se em campo uma Seleção cinzenta, ainda que tapada por uns trapos vermelhos que a tantos quilómetros se viam desbotados após uma primeira lavagem. Daí para Atlanta, onde pelo contrário nunca foi erguido qualquer altar aos deuses, resultado e exibição melhoraram um pouco.
Havia curiosidade de perceber se alguns jogadores se chegariam à frente, e talvez aí tenha Trincão ficado a apontar para o golo que marcou. A definição do jogador do Sporting ficou patente, falta-lhe contudo o tricotar do extremo que vai chegar ao Mundial já sem contrato com o Manchester City e provavelmente com outro patrão. Terá o leão ganhado o lugar? Arrisco que não, porque na projeção daquilo que Portugal quer ser com o espanhol ao leme, assumindo bola e controlo do jogo, não restam grandes dúvidas de que Bernardo faz parte do plano.
Pior estiveram Ramos, a atravessar mau momento em termos de confiança, e um desastrado e emocionalmente frágil — imagem que teima em não conseguir diluir, sobretudo quando a exigência cresce — Inácio. Razão esta suficiente para Tomás Araújo reivindicar mais atenção, precisando de ter aí a cumplicidade de Mourinho a sustentar a sua afirmação primeiro na Luz e, consequentemente, na Cidade do Futebol.
Numa das muitas conversas que temos, e com quem espero não estar aqui a cometer inconfidências, eu e o Nuno Travassos tirámos conclusões semelhantes. Se João Neves é a melhor companhia para Vitinha e Vitinha é a reserva de clarividência e criatividade da equipa, há questões identificadas no que diz respeito ao terceiro elemento. Bruno Fernandes é absolutamente imprescindível, mas a química com aqueles dois terços do meio-campo campeão europeu não é a melhor.
A linguagem é diferente. Vitinha e João Neves querem escolher o momento certo e o Manchester United pretende acelerar à primeira. Definir. Está completamente viciado nesse momento sempre que se veste de Manchester United e não há nada de mal nisso, apenas precisa de enquadramento diferente. A própria forma de Cristiano Ronaldo abordar os ataques mais associativos, quando de forma errática e quase sempre estéril deixa a companhia dos centrais para se chegar à linha, irá também implorar que Bruno Fernandes ocupe o seu lugar. Logo, talvez até faça mais sentido se se aproximar da área. Uma ideia que cruza com o posicionamento de Bernardo, a cada dia mais médio e menos avançado.
Por que razão não colocar Bernardo mais perto da construção, a dividir despesas e a combinar com Vitinha e João Neves, e Bruno Fernandes a abrir o corredor direito para as sobreposições de Cancelo ou Dalot? Em tese, surgiria melhor química na fase de criação, com os três a falar na mesma língua. E teríamos maior presença no momento da decisão por quem define muito bem, como Bruno Fernandes. Que fez mais duas assistências, assinale-se. Talvez noutros tempos, um Bruno mais paciente, que não sentisse a cada momento que tem de carregar a equipa às costas, fosse possível. Não o é.
Paralelamente, a experiência de Samú terá sido isso, uma forma de perceber da prontidão do médio do Maiorca para assumir a posição 6 no grupo, não necessariamente no 11.
À frente, resta uma vaga. Martínez gosta muito de Pedro Neto. E é verdade que o extremo do Chelsea teve no passado vários azares que o afastaram das fases finais. Só que, neste momento, não é certo que seja ele a partir na frente. Estará no grupo se tudo correr bem fisicamente, mas há um novo João Félix, motivado e sem ter deixado evaporar uma pinga de talento nos desertos da Arábia Saudita — que paradoxalmente lhe devolveu algo minimamente parecido com um rumo —, disposto a baralhar as contas. O 10 conseguiu evitar as miragens e descobrir-se a si próprio em todo o espaço à sua volta.
Entretanto, Rafael Leão, pela época que está a fazer e até pelo deslocamento para o corredor central no Milan, poderá vir a ser um grande ponto de interrogação até ao verão.
Serão eventualmente as hesitações do selecionador, o desejo de não se expor tanto ou a gestão do momento ou da condição física de alguns elementos que o farão decidir-se por Rúben Neves (6-quarterback para aproveitar espaço nas costas da defesa e variações de centro de jogo), Samú Costa/João Palhinha (6 posicional, com forte incidência na recuperação da bola), Gonçalo Guedes (avançado de transição e ataque rápido que brilha no espaço) ou Francisco Conceição (extremo de 1x1).
Paulinho, a rábula das últimas semanas, terá surgido em cena para apenas expor o racional divulgado por Martínez. Nunca teve perfil semelhante a Ronaldo e Gonçalo Ramos, e rapidamente passou de ponta de lança esquecido (como nós dizíamos nos baldios onde jogávamos) a opção com minutos nos dois jogos. Um episódio perfeitamente evitável.
Do mítico Azteca e de Atlanta não chegaram novidades sobre a evolução da maior lacuna da equipa nacional: como transformar os níveis de retenção da posse de bola que a equipa atinge com um ataque posicional efetivo, capaz de ultrapassar blocos baixos. Diante dos mexicanos, Portugal criou muito pouco e, perante os norte-americanos, desequilibrou a partida após uma recuperação de bola a meio-campo e um ataque rápido. Consolidou o triunfo, no segundo tempo, através da bola parada.
É verdade que Vitinha tem e terá papel importante nesse momento, mas é daqueles problemas que só se resolvem de forma coletiva, e talvez até com mais nomes. Mateus Fernandes é uma boa ideia que só necessita de trilhar um pouco de caminho. Tal como Pote e Horta. Pedro Gonçalves ficará à espera do tamanho e estado certos da relva, embora tal como o avançado do SC Braga, e pela forma como leem o espaço, não esteja a ser valorizado o suficiente nesse contexto que nos perseguiu em alguns momentos do apuramento. Fará sentido abdicar deles quando o que entregam é pelo menos parte do que procuramos? Na verdade, Martínez até agora e desde os tempos da Bélgica, e com outros jogadores, nunca encontrou a solução. Será que é desta? A contagem decrescente começou há muito é cada vez mais sonora. A resposta poderá significar uma despedida em glória. Para o selecionador. E para Ronaldo.
