Rui Borges é saber com o que se conta
Não tenho uma relação fácil com Rui Borges, todavia dou sempre segundas oportunidades a quem parece boa pessoa para que me convença. Não gosto muito de tascas, nem de vinho, embora tolere uma ou outra cor, mas aceitarei uma cerveja, à frente de um pires com tremoços para ajudar a alimentar a conversa. E ele pode jogar em casa. Em Mirandela. Se o quiser.
Tem, o técnico, histórias para contar, feitos para lembrar, cicatrizes das quais se orgulhar, após tantas batalhas. Há uns anos, ainda não tinha chegado ao Vitória e já me fazia olhar duas vezes, à procura de algo especial. Bons trabalhos em contextos diferentes, com ideias concretas e resultados a provarem solidez. Havia ali qualquer coisa. Disse-o a uma ou duas pessoas, mesmo sabendo que a palavra mais importante no futebol não é momento, é sim contexto. E o contexto pode ser arrasador, mesmo diante o mais qualificado profissional do planeta.
Quando o Sporting lhe bateu à porta não estranhei. Lembro-me de ter pensado — porque não? O grau de exigência iria aumentar, ou seja, menos espaço para derrotas e empates, sendo que cada não-vitória, no ecossistema de um grande, é desaire. Um verdadeiro escândalo se for perante os mais fracos.
Rui Borges ia ainda ter de lidar com craques de uma dimensão com que dificilmente se terá cruzado antes. Como jogador ou treinador. Ainda mais orientá-los. Obrigá-los a trabalhar, a defender e a atacar. A dar-lhes instruções.
O risco foi grande. Se não convences o grupo, se não te fazes respeitar, e as individualidades jogam apenas para si o futebol que querem jogar, estás perto de fracassar. Aos primeiros resultados menos bons os holofotes já queimam sobre a pele. E mesmo que te achem simpático, ninguém vai arriscar queimar-se. Quem és tu, afinal? — o início de um motim.
As circunstâncias eram piores. O primeiro sucessor de Ruben Amorim falhara, o navio deixava entrar água por todos os lados. A média de acerto de Varandas também já estava submersa, como se previa. E a vantagem pontual que chegou a haver em Alvalade praticamente esgotara. Era começar de novo sem começar, com plantel herdado e ao qual teve de se adaptar.
Borges tentou pôr tudo a seu jeito, porém a instabilidade que criou obrigou-o a voltar atrás. Os três centrais ganhavam a primeira batalha, mas não a guerra. É com o modelo de Amorim que resiste no primeiro lugar até ao fim e ganha também a Taça. Assumiu esse compromisso consigo próprio para ganhar o campeonato e ainda tempo para poder conquistá-lo à sua maneira. Se não o tivesse feito, hoje já poderia estar num outro lugar.
O sucesso não o impediu de voltar a tentar impor as suas ideias. Na nova época mudou o plano B para A, e vice-versa, e os leões chegaram a desenhar belos momentos, sobretudo nos exigentes palcos da Champions. Aí caíram o rei continental PSG, a fúria de Bilbau e o gelado Bodo/Glimt, aqui virando uma eliminatória que todos, menos ele, davam como perdida.
Percebo a dúvida que muitos têm. Esta desenha-se em letras garrafais, numa negação: Não é treinador para o Sporting!
Essa sentença enche o peito com a derrota na Noruega e esvazia-se com a remontada de Alvalade. Não faz sentido. A conclusão tem de estar muito para lá dos resultados, mesmo que os dirigentes não consigam enxergar tão longe.
Algo me diz que falta algo a Rui Borges, mas não sei dizer o quê. Não é palpável. Talvez seja carisma, que esmorece ainda mais ao lado dos mais sofisticados Farioli e Mourinho.
Todos sabemos que a comunicação não é brilhante. Enquanto foi novidade até lhe achámos piada, porém, com o tempo, já soa a algo para lá do naif, quase sintético e sem alma. Talvez isso explique a dificuldade para fazer passar a mensagem em alguns jogos ou momentos. Porque nenhuma frase que sai da boca de um treinador é unidirecional. Chega ao seio do grupo.
Comunicação e liderança podem-se trabalhar. Sem perder a naturalidade, ganhar mais consistência, saber criar o impacto certo é fundamental.
Não alinho nos que dizem que faz más substituições. Na verdade, lidou sempre com demasiadas lesões e a equipa foi sempre respondendo, o que prova que o grupo está, na maior parte das vezes, bem ligado ao sistema. Apesar da tal comunicação estranha. Até há semanas, o argumento era o de não ganhar aos arquirrivais. No entanto, podíamos dizer o mesmo de Mourinho e Farioli, dois revolucionários de gerações diferentes. Claro que falhar o tricampeonato, se isso vier a acontecer, irá doer aos sportinguistas. Ainda mais diante de um FC Porto que se teve de reconstruir praticamente do zero, o que incluiu um treinador com novas ideias. E um Benfica que, mesmo trazendo Mourinho, está há tanto tempo na sua crise de identidade que só um verdadeiro milagre iria levar a que se fosse o mais forte esta época. Isso acentua a dor. Porque o Sporting terá sido menos competente em um ou dois jogos e o FC Porto também não escondeu alguma felicidade aqui e ali. Essa vitória no clássico em Alvalade ajudou e de que maneira a inclinar o campeonato. Todavia, ninguém o poderia adivinhar. Era impossível prever que os portistas perdessem tão poucos pontos depois.
Na verdade, o que me faz duvidar um pouco de Rui Borges é que se sente que já vimos tudo o que ele pode dar — mesmo que melhore a comunicação —, no modelo e nas suas variantes, e isso pode chegar ou não, dependendo do contexto. Esta temporada, não deixa de ser a primeira em que quis jogar à sua maneira e talvez falhe o tri. Coincidência talvez, mas um facto.
Rui Borges é um bom treinador, não um fora de série. Organizado. Profissional. Atento aos detalhes. As suas equipas mais cedo ou mais tarde jogam bom futebol. Tem já troféus ganhos. Mas não consigo dizer com clareza que é a pessoa certa para o lugar que ocupa. Haverá momentos que sim, outros que não. E nestes últimos notar-se-á a falta de carisma. Rui Borges mereceu chegar a um grande, ainda tem de merecer continuar. Até pelas opções disponíveis, Varandas irá renovar-lhe contrato. É que saber que dali não se desce também pode ser positivo.
