Centralização: os números explicam porque o jogo não muda no futebol português

A centralização dos direitos televisivos em Portugal tem sido apresentada como a grande solução para os desequilíbrios do futebol nacional. A promessa é simples: mais justiça, mais competitividade, mais sustentabilidade. O problema é que centralizar não é, por si só, redistribuir, e muito menos transformar estruturalmente um sistema historicamente desigual.

A recente Cimeira de Presidentes da Liga Portugal confirmou isso mesmo. O tema central foi a chave de distribuição do valor dos direitos audiovisuais, obrigatoriamente centralizados a partir de 2028/29. A Liga apresentou uma proposta aprovada internamente, mas não divulgada publicamente, num processo ainda marcado pela opacidade, aparentemente por carecer de aprovação em Assembleia Geral

A informação disponível é fragmentária e mediada, e nem aí há consenso. Segundo valores avançados, a Liga estará a trabalhar com estimativas entre os 200 e os 250 milhões de euros por época, situando o valor médio na ordem dos 225 milhões. Se o montante global parece reunir relativo consenso, já a distribuição apresenta propostas que oscilam entre uma componente fixa na ordem dos 32–34% e modelos que defendem uma repartição igualitária de 50%.

Esta divergência não é um detalhe técnico, mas uma escolha política com consequências estruturais. Por isso, os cenários não são apenas contas: são opções.

Os três grandes sempre foram claros: não aceitam perder receita face aos contratos individuais atualmente em vigor. Do outro lado, os clubes de menor dimensão reclamam previsibilidade e sobrevivência, defendendo uma maior componente fixa, menos dependente do mérito desportivo ou da implantação social, critérios que, na prática, tendem a favorecer quem já parte em vantagem.

Os números ajudam a perceber o conflito. Num cenário mais próximo da proposta da Liga, os três grandes conseguem manter valores próximos dos atuais. Num cenário em que a componente fixa assume maior peso, esses valores diminuem de forma significativa. Não é necessária uma análise económica sofisticada para compreender esta resistência: quando a centralização deixa de ser percecionada como oportunidade coletiva, passa a ser encarada como ameaça individual.

Quando se fala em centralização dos direitos televisivos, a pergunta que rapidamente surge entre os adeptos é simples: quanto vai receber o meu clube? A resposta está longe de ser linear. O que se segue são cenários ilustrativos, não certezas, num contexto em que a própria imprensa desportiva revela leituras........

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