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A Caixa de Pandora e a Lâmpada de Aladino

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14.01.2018

Um número limitado de grandes mitos é recorrentemente revisitado para ativar o imaginário social do universo tecnológico. E percebemos bem porquê. Se pensarmos no transumanismo e na imortalidade, na inteligência artificial e na robótica, nos interfaces cérebro-computador e na computação cognitiva, no homem aumentado e nos ciborgues, na realidade virtual e no ciberespaço, na engenharia humana e na bioética, não nos surpreende que se constitua um imaginário social complexo em redor da tecnologia e do caminho para a pós-humanidade e que, nessa trajetória, as alusões a uma mitologia milenar não sejam de todo injustificadas, pois elas contêm muitos arquétipos acerca do comportamento e da compreensão humanos.

A cada tecnologia estão associados uma promessa e um mistério, isto é, um imaginário social que está configurado como se fosse uma linguagem que precisa de ser descodificada. Neste sentido, a transformação digital é erigida como um mito indiscutível, um imperativo categórico para definir as escolhas de sociedade, doravante, a sociedade da informação e do conhecimento. Imaginação e conhecimento, eis pois o caldo de cultura do mistério da transformação digital. Isto quer dizer que o imaginário tecnológico é uma produção simbólica da nossa cultura, agora convertida em cibercultura. Forma-se, portanto, uma verdadeira economia simbólica associada às tecnologias da informação e comunicação, cuja matéria-prima é feita de signos e simbolos, discursos e reputações. Neste sentido, o imaginário social ajuda a socializar as tecnologias, digamos que ajuda, mesmo, a naturalizar as tecnologias.

Um exemplo eloquente desta economia simbólica, quase mitológica, é o complexo da “convergência tecnológica” das NBIC (nanotecnologias, biotecnologia, informática e ciências cognitivas) que na sua sabedoria determinística nos conduzirá ao “admirável mundo novo do transumanismo e pós-humanismo”.

Este imaginário social tem origens muito diversas e à sua volta configuram-se discursos muito variados e controversos em função do campo dos protagonistas. Desde logo as representações daqueles, “os tecnólogos”, que concebem a inovação em centros de pesquisa fundamental. Depois o governo e a administração pública, com os seus financiamentos e programas de políticas públicas. A seguir os grandes operadores, a comunicação empresarial e os serviços de publicidade e marketing. Depois os meios de comunicação social e os grandes eventos, mas, também, o universo das artes, da moda e da ciência-ficção. Por fim, os próprios utilizadores, em modo de servidão voluntária, vivendo uma espécie de embriaguez tecnológica e digital.

A propósito de representações sociais, acrescente-se que........

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