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A Europa sem sentido de comunidade

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13.07.2018

Se houve um mito mobilizador na história da União Europeia foi a ideia de fronteiras abertas. Não só o facto de as fronteiras estarem literalmente abertas, mas também uma ressignificação da ideia de fronteiras e da experiência de as atravessar, uma realidade cada vez menos política e cada vez mais cultural, de convívio e encontro de diferenças. Foram as cidades e capitais europeias da cultura que, desde 1985 (precisamente o mesmo ano do acordo de Schengen), passaram a mostrar-se aos cidadãos europeus, convidando-os a conhecer outros países europeus através das suas cidades. 20 anos antes, tínhamos os “jogos sem fronteiras”, uma ideia de Charles de Gaulle, na continuidade do tratado do Eliseu assinado com Adenauer.

Já então se punham nas televisões as cidades médias europeias de toda uma Europa de cidades, meio a competir meio a brincar, cidades que assim se visitavam reciprocamente. Esta fronteira valorizada, não como barreira que serve o propósito de impedir a passagem às pessoas, mas como experiência formadora, entrou no ADN do ensino superior europeu com o programa Erasmus, criado em 1987, programa que beneficiou milhões de jovens europeus, muitos deles hoje com mais de quarenta anos e com capacidade de influir nos nossos destinos colectivos.

Portanto, para os cidadãos, a Europa não foi apenas nem sobretudo o projecto de remoção de obstáculos a um mercado único, cada vez mais neoliberal, cada vez menos empenhado no pilar da coesão social, como foi para esferas de interesse com cada vez mais poder. Para os cidadãos, foi um projecto de comunidade alargada de fronteiras benignas, aliás consentâneo com o ideal da sociedades do conhecimento, onde a única fronteira a transpor é a do desconhecimento. Continuar a ler

Mas este mito que funcionou durante décadas para os cidadãos europeus, deixou de mobilizar. Os motivos desagregadores que se apresentam para isso são conhecidos mas, bem escrutinados, verifica-se que são falsos. São demasiado débeis para que se lhes possam atribuir tantas consequências.

Um problema antigo

Fala-se de refugiados, migrantes, terroristas, numa amálgama que diferencia o que não devia diferenciar, migrantes para um lado e refugiados para outro, quando na verdade todos estão condenados ao pior se não forem acolhidos. De outro modo, como se teriam disposto aos perigos por que passaram? Em 2017, mais de três mil morreram no mar, e, crê-se fundadamente que ainda é maior o número dos que morreram no deserto. Chegaram à Europa (?) 170 mil. Uma amálgama que, por outro lado, não diferencia o que devia diferenciar: entre todos estes e terroristas, que com eles nada têm que ver.

É sabido que a base de recrutamento do terrorismo é, no essencial, a própria população europeia, a braços com os seus problemas crescentes de exclusões e desigualdades. Aliás, o terrorismo na Europa não é mais letal nos dias que correm do que foi nos tempos do IRA e da ETA. E na verdade a história da Europa, sobretudo a moderna, é também uma história de terrorismo, ou não tivesse o próprio conceito emergido na Europa e por sua causa. Portanto, não se trata de uma nova ameaça ao projecto europeu, antes de um problema antigo que deveria encontrar nele uma resposta.

Por outro lado, a crise migratória está longe de enfrentar o tipo de descontrolo que muitas peças divulgadas pelos media nos querem fazer crer. O número de pedidos de asilo não está a crescer, até baixou significativamente no ano passado, o que está bastante relacionado com uma situação menos desesperada na Síria. Os migrantes económicos oriundos de África são muito menos e perfeitamente integráveis. Ao longo dos últimos anos, o total acumulado de pedidos de asilo não excede um ponto percentual da população europeia.

Em Portugal, não se chega sequer à vigésima parte desse ponto percentual. E dos que foram recolocados cá, ao abrigo do Programa de Recolocação da UE, sensivelmente metade seguiu depois em direcção a outras paragens, muito provavelmente por causa de laços de família e de comunidade.

Ainda assim, as pessoas facilmente dão forma e cor a cenários absurdos, que se alastram histericamente. Ouve-se que é preciso proteger o futuro dos nossos filhos, que está em causa a sua segurança, que não temos condições para receber tantos, e que ou se faz alguma coisa ou é o caos. Estas conjecturas são pura e simplesmente ridículas. Estivéssemos a falar de meio milhão, como sucedeu com os retornados, mas não, não estamos a falar sequer da sua centésima parte.

A absolutização da opinião individual

Pode haver uma percepção desproporcionada que resulta da desproporção com que os media representam a realidade, agudizando contrastes culturais, magnificando inadaptações........

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