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A tua rua é a minha casa

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14.01.2018

É um dia de semana como outro qualquer. Os ponteiros do relógio da Sé marcam 23:30 horas. As ruas do Funchal encontram-se quase desertas no momento em que uma carrinha estaciona numa paralela da catedral.

“Quanto ficou o Benfica?”, pergunta um dos cinco voluntários que saem da carrinha. “1-1”, responde outro, enquanto retira três refeições, embaladas em cuvetes de plástico, do porta-bagagens do automóvel.

Ao longe, entre cobertores e cartões que improvisam uma cama, uma cabeça ergue-se. Nas imediações do largo Gil Eanes, Joana, ao aperceber-se da chegada dos elementos do Centro de Apoio aos Sem-Abrigo (CASA), levanta-se lentamente e senta-se numa das escadas do edifício que escolheu para passar esta noite.

Os voluntários aproximam-se de Joana, que se encontra entre os sacos e mochilas que carregam a sua vida, e de mais um corpo coberto com um fino lençol para deixar uma refeição e um sumo. “Já não estava à espera desta comidinha hoje”, revela uma expressão agradecida de quem faz da rua a sua casa. Com o romper do silêncio, Pedro mostra agora a sua face. Ainda atordoado pela interrupção do sono, agradece também.

A conversa alonga-se por mais alguns minutos. Trocam-se sorrisos e palavras de esperança. Fala-se da chuva e do sol, mas ali a palavra-chave é ‘ouvir’. Ouvir, sobretudo, as preocupações de quem está na rua. A tremer, Pedro responde de forma afirmativa quando um dos voluntários lhe pergunta se quer que lhe tragam um cobertor. Momentos depois é tempo de ir, tempo de apoiar outra pessoa; é tempo de continuar a ouvir.

Seguem caminho e, já noutro ponto da cidade, José abranda com a carrinha: “Então Rosa? Precisas........

© JM Madeira